História da Ti Adélia que nunca sentiu o mar

Praia_MonteGordo(2)[1]

 

Entre muitas pessoas que conheci nas minhas reportagens nesse Algarve (ainda desconhecido) que é o interior da serra, ao serviço do Diário de Notícias, houve uma que me marcou profundamente – a da Ti Adélia, que nos inícios dos anos noventa, então com 78 anos curtidos pelo sol da terra que ainda amanhava, “pr´a gente poder comer qualquer coisinha”, afirmava que o seu maior sonho era “entrar por esse mar fora e sentir a água, aquela água tanta e tão forte”. A idosa, que vivia num monte isolado do concelho de Alcoutim, paredes-meias com o Alentejo, com mais seis pessoas, “todos velhos como eu”, poucas vezes saíra do seu sítio e a única água que vislumbrara tinha sido o ribeiro que corre junto ao monte e o Guadiana, o rio que banha a sede do concelho e faz fronteira com terras espanholas. “Uma vez deu-me um achaque e estive três dias no hospital, em Vila Real de Santo António, mas como fui e vim na ambulância, não cheguei a conhecer o mar, essas praias tão lindas que dizem há lá por baixo, com muita areia”…

Prometi-lhe, nesse dia de início de Primavera, que voltaria no Verão e iria mostrar-lhe o mar. E assim foi…Um belo dia, em finais de Julho, aventurei-me sozinha por esses caminhos fora e fui cumprir a promessa que fizera meses antes à ti Adélia. A irmã, mais recatada e introvertida, não quis participar na viagem, pelo que a minha convidada vestiu a sua melhor roupinha, trocou o lenço da cabeça carcomido pelo sol por outro que ainda não tinha sido estreado e lá foi dando gritinhos de alegria na descida até Monte Gordo, a praia que escolhi para a inauguração balnear da ti Adélia. Ao entusiasmo do areal, “ai que areia tão fininha e dourada”, sucedeu o medo do mar. “Vá lá, ti Adélia, molhe os pés e sinta a água”, incentivava-a, observando-a cada vez mais afoita, a sentir a água bater-lhe nas pernas e a inundar-lhe a alma de felicidade. “Ah…o mar é tão bonito!”…”Ai que me molho toda!”…

A Ti Adélia, que vivia com a sua irmã um ano mais nova, na casita que ambas herdaram dos pais, nunca casou nem teve filhos. Perdeu-se de amores por um jovem contrabandista de tabaco que um dia pediu aos pais para se esconder em casa durante umas semanas, fugido à polícia, e nunca mais voltou. “Aquilo é que era um belo rapaz! Alto, moreno, elegante e bem vestido! E muito bem-falante”, contou-me, adiantando que o curto período da sua convivência foi suficiente para se apaixonar por ele. “Quando foi embora, prometeu-me que voltaria um dia para casarmos e vivermos junto ao mar, porque dizia que gostava muito de mim”, disseram aqueles olhinhos pequeninos mas intensamente azuis e brilhantes, adiantando que o seu Jerónimo lhe descrevera ao mais ínfimo pormenor as cidades e as praias do litoral algarvio e andaluz por onde “trabalhava”…”Ele tinha 30, eu 20…nunca voltou e eu nunca conheci outro homem”…afirmou com ar nostálgico, mas resignado. Foi ajudando a criar os irmãos, cuidou dos pais antes destes morrerem, tinha por companhia a irmã, Deolinda, um ano mais velha. “Ficámos solteiras. Por aqui não havia muitos rapazes”.

Com efeito, os irmãos e outros rapazes do monte foram embora ainda jovens, em busca de uma vida melhor. Uns para França, outros para o Canadá. E lá ficaram. Regressaram ao monte já “com vida feita”, casados e com filhos. “Conheci os meus sobrinhos ainda moços pequenos. Nunca mais os vi”, conta a Ti Adélia, explicando que um dos seus irmãos, que já morrera naquela altura, ia ao monte todos os anos, no mês de Agosto. “Foi ele quem fez os melhoramentos aqui em casa. Depois de ele ter partido, nunca mais soube nada da família”, acrescentou a idosa. “Ficámos nós nesta parvalhêra e apenas com os nossos sonhos”…A relação com o “mundo lá fora” era estabelecida, uma vez por semana, com a carrinha do ti Manel, o “minimercado” itinerante que abastecia os oito habitantes locais dos bens que não saíam da terra, desde roupa a tachos e panelas, e com a Unidade Móvel de Saúde que a Administração Regional de Saúde do Algarve implementara pioneiramente no concelho de Alcoutim. “Ai, os senhores enfermeiros são tão simpáticos!”, manifestava a ti Adélia, garantindo que sempre que eles visitavam o monte regressavam “carregados de coisinhas”. As coisinhas, neste caso, foram as mesmas que me ofereceram a mim e ao repórter fotográfico que me acompanhou – uma abóbora gigante, mel, licores de poejo, hortelã e medronho, tomates maduros apanhados no momento, pimentos e alfaces e uma boneca de juta (um dos artesanatos típicos das serranias algarvias) que a minha interlocutora orgulhosamente me ofereceu e que ainda conservo.

Eram os enfermeiros que, entre medições de tensões e da diabetes, lhes contavam as “notícias lá de baixo”. Era uma risota, uma alegria tremenda quando a carrinha da unidade buzinava. “Bom dia ti Adélia! Bom dia Sr. Fernando! Então Sr. Joaquim, como é que vai isso?”. Aos cumprimentos calorosos dos profissionais de saúde, o grupo residente respondia com uma ainda mais esfuziante alegria. “Então, senhora enfermeira, já casou?”, perguntava a ti Adélia a uma das enfermeiras ainda jovens enquanto esta lhe mostrava fotografias da sua cachorrinha nova e da sua casa. “Ai esta menina é como se fosse minha filha, estimo-a muito”, dizia com ar ternurento a idosa ao mesmo tempo que lhe dava um abraço apertadinho. “Esta gente estraga-nos com mimos”, replicava a enfermeira, ao mesmo tempo que ia apontando as necessidades farmacêuticas dos habitantes locais…A hora da despedida era sempre a mais dolorosa…”Quando voltarem, posso não estar cá”, vaticinava a ti Adélia. “Não diga baboseiras, ti Adélia, você está rija! Sã como um pero!”….

A outra buzinadela do contentamento da velha senhora e dos seus vizinhos, era a da carrinha do Vítor, que levava ao monte peixe, farinha, grão, feijão, açúcar, massa, óleo, azeite, alguidares, tesouras, colheres de pau, panos de cozinha, toalhas de mesa, chinelos, cuecas, pijamas, batas, blusas, casacos, uma parafernália de coisas absolutamente indispensáveis a quem vive num monte isolado, no meio do nada e longe de tudo. O Vítor vendia fiado, só cobrando quando os idosos recebiam as reformas. “Está aqui tudo num caderninho. Não me esqueço de nada!”, garantia o comerciante, explicando que levava sempre um apontamento com os pedidos que os habitantes faziam. “É assim…se não formos nós, quem é que lhes vale?”.

A viagem ao mar foi para a ti Adélia uma “bênção de Deus”. “Nunca mais me vou esquecer menina Paula”, assegurava, acrescentando “que agora já conheço aquela sensação que o meu Jerónimo me explicava da praia, da areia, do mar de perder de vista”. “Deus a proteja a lhe dê muita felicidade”, desejou-me a idosa, abraçada ao meu tórax que ela era bem pequenina e eu sou grande, depois de um lanche oferecido pela pequena comunidade, com chouriços, paios, azeitonas e um gaspacho de cortar a respiração, de tão bom que estava. “Volte sempre”, diziam em uníssono, num adeus coletivo que me fez verter uma lágrima de felicidade. Nunca mais lá voltei…

 

 

 

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