Histórias da academia da felicidade

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Na minha nova condição de aluna da Universidade Sénior da Póvoa de Varzim (onde entrei como professora), frequento este ano letivo a disciplina de Psicologia, ou melhor a Academia da Felicidade, como a professora faz questão em apelidar aquela hora e meia semanal, em que os alunos, cada vez em maior número, entram a sorrir, passam o tempo a rir e saem de lá bem-dispostos e com os olhinhos brilhantes de alegria. Eu, claro está, incluo-me no grupo. Não só pelos temas abordados, mas pela professora Isabel, uma psicóloga com muitos anos de experiência, que deixou a Póvoa ainda bebé e rumou com a família para o Brasil. A professora da academia regressou há dez anos, mantendo obviamente o português brasileiro, com uma linguagem muito terrena e expressões que só por si nos fazem rir. Eu, que sou a cassula da aula e consigo distanciar-me dos demais alunos, acabo, sem querer, no meu sentido empírico, por fazer uma análise psicológica e sociológica da equipa, altamente enriquecedora. E concluo que os seniores participantes, na casa dos sessenta, setenta, oitenta e até noventa, no meio de uma gargalhada coletiva, ainda estão a aprender a ser felizes e a lidar com as suas dores, as suas perdas, a sua solidão.

O tema das aulas este ano é a Felicidade. Invocando o pai da psicanálise, Sigmund Freud, e o facto deste ter constatado que a esmagadora das pessoas que assistia “não queriam ser felizes”, a professora Isabel apresenta aos seus alunos um conjunto de dicas que podem conduzir à felicidade. “Aprenda a viver aqui e agora”. É conveniente não viver agarrado ao passado e não pensar muito no futuro, no que vai acontecer. Há que viver intensamente o dia de hoje, segundo a psicóloga. No que me diz respeito, agora vivo muito mais o dia, usufruindo e aproveitando as coisinhas pequeninas que antes do meu tsunami de 2016 desvalorizava totalmente. Tomar café numa esplanada, aproveitando o facto de viver quase em frente à praia, nesta maravilhosa cidade plana e aberta que é a Póvoa de Varzim, apreciar a chuva que rega as plantinhas e ervinhas aromáticas do meu terraço, caminhar pela marginal observando o mar… O meu pesado e sombrio passado, que tanto mal me provocou, está lá, arrumadinho numa gaveta fechada à chave (deitei as chaves ao lixo) e já não me faz mossa. Com esta reconciliação, tirei um penoso fardo das minhas costas e estou hoje muito mais liberta e em paz. Também não penso no futuro. Quem vive uma situação extrema, de limite, como eu vivi e tem de reaprender tudo (andar, comer, beber, engolir, pegar num copo, vestir-se ou lavar os dentes), agradece à vida por estar cá e conquistar uma luta sem tréguas que nem tão cedo me vai dar descanso, mas que me tem fortalecido interiormente e me mudou, enquanto pessoa, para melhor.

“Valorize o aspeto positivo”, recomenda a professora de psicologia dos seniores. Em relação a isto, a reviravolta da minha vida reforçou ainda mais uma característica que sempre me definiu: a capacidade de quando olho para uma pessoa não ver nela só o lado mau. Isto é, esvazio totalmente os seus aspetos negativos, valorizando os positivos. Conheci em tempos uma pessoa, idosa, que se cruzava comigo todos os dias e nunca respondia ao meu “Bom dia”, “Boa tarde, como está?”. “O raio do velho, que antipático e casmurro!”, pensava eu, indignada com tamanha falta de educação e delicadeza. Como sou por natureza curiosa, tentei apurar algo da pessoa em questão que justificasse o seu comportamento. Acabei por saber que o senhor enviuvara há alguns anos, não tem filhos nem família próxima e que vive na mais completa solidão. A partir desse momento, o meu cumprimento diário passou a ser acompanhado do mais aberto sorriso e com umas frases simpáticas de referência ao tempo:  “que dia de calor está hoje” ou “com esta chuvinha, hoje está-se bem em casa”…O velhote passou a retribuir o cumprimento e ajuda-me a trazer os sacos das compras até à porta. Percebi o porquê da sua amargura e azedume e um dia destes convido-o para me acompanhar à Academia da Felicidade. De certeza que a professora Isabel lhe vai arrancar uma sonora gargalhada quando contar as histórias escabrosas e hilariantes do “negão” seu ex-marido.

Quando os médicos me ditaram a sentença “não vai voltar a ter a sua anterior profissão”, o mundo caiu-me aos pés. Depois de 25 anos de jornalismo, a profissão que abracei nos últimos quatro anos e descobri ser a minha grande paixão, a formação, era incompatível com as minhas limitações físicas. Chorei, barafustei, não me dei por vencida até que um dia o cansaço físico que ainda sinto e me leva a fazer tudo em slow motion, fez-me perceber o lado positivo das coisas. Esta minha pausa, afinal permite-me fazer as coisas que sempre desejei mais fazer e que a falta de tempo e a voracidade da vida nunca me permitiram – escrever, escrever muito, ler um livro do princípio ao fim sem interregnos, fazer jardinagem, ter uma cadela elétrica que me faz andar prazenteiramente de língua de fora, caminhar, reinventar-me na cozinha, usufruir da minha casa e estar sozinha, com os meus pensamentos e reflexões. Aprendi a conviver comigo e a gostar mais de mim. Estou em plena harmonia e equilíbrio.

A psicóloga Isabel recomenda , por outro lado, aos seus alunos, que “redescubram a sua própria inocência” e que chamem “a criança que têm em si”. “Brinquem , divirtam-se, façam asneiras, ponham-se ao nível dos vossos netos e bisnetos”. “Concedam-se pequenos prazeres”, aconselha ainda, pedindo que “comam de vez em quando um mega gelado cheiinho de coisas boas e muitas calorias”. “Deixe agir o seu instinto” e “fotografe os seus momentos felizes”. Eu, que sempre fui uma pessoa de fotografia – gosto de ser fotografada e fotografar- não quis que ficasse registado o duro período em que estive em coma, nem toda a minha reabilitação posterior. Não pelo meu aspeto físico e debilitado e o meu olhar vazio (perdi quase 20 quilos), mas porque, de facto, não foram momentos felizes, mas sim de incertezas, dúvidas, incógnitas. Tenho duas fotos em cadeira de rodas, tiradas em dois fins-de-semana que me deixaram vir a casa e não gosto de revê-las. A partir do momento em que recuperei o andar e a minha autonomia, faço questão em fotografar todos os meus momentos felizes, com a minha família, amigos e colegas. Registo tudo para não perder as oportunidades.

Á turma sénior, a professora de psicologia apresenta ainda mais quatro dicas para a felicidade. “Respire profundamente, faça exercícios e cuide da saúde”, e “deixe fluir a sua energia interior”. A propósito de energias, aconselha-nos a abrir as janelas todas as manhãs. “Ao abrir os cortinados, os estores e as janelas, libertam as energias acumuladas durante a noite…assim, elas saem ligeiras e o ambiente renova-se”. É verdade. Mesmo antes dos simples mas sábios conselhos da psicóloga, esteja calor, frio ou chuva, é a primeira coisa que faço quando acordo é dar luz e ar à casa. Não há janela que não se abra, não há cortinado que não se afaste para o lado. Viver na penumbra não me faz bem. É por isso que fiquei tão feliz quando, depois de um périplo por três hospitais diferentes, sempre em camas de interior, fui transferida para a casa dos milagres, o Centro de Reabilitação de Gaia, com gigantescas janelas viradas para o mar…reabilitei-me física e emocionalmente. A professora diz-nos que é bom ter um gato em casa. Eu não tenho gatos porque sou altamente alérgica ao seu pelo e porque, quando comprovei esse facto, fiquei-lhes com uma aversão instintiva. “Já repararam que quando chegamos a casa, o nosso gato roça-se em nós? É porque está libertando e sacudindo as nossas más energias trazidas lá de fora”, argumenta. Tento seguir essa dica diariamente. Quando estou só (agora passo muito tempo só, comigo própria e com os meus pensamentos) e tenho tempo para a meditação. Nesses momentos, sinto que expulso as más energias e permito a entrada de boas ondas. São elas que me alimentam e me dão força para enfrentar (e vencer) as minhas batalhas..

Por último, de acordo com a professora de psicologia, devemos usar a criatividade. Sair das rotinas, criar novos rituais, procurar novas pessoas e novas situações. Torna-nos isso mais felizes? Tenho a certeza que sim. Por último, aconselha a psicóloga, “ouse”. Eu já ousei mudo na minha vida. A maior ousadia que cometi e quase me ia custando a vida, foi quando decidi quebrar um casamento de 20 anos e dois filhos, que me fazia mal. Lutei contra ventos e marés até que um dia conheci o meu atual companheiro e o grande amor da minha vida e larguei tudo para estar com ele. Fui crucificada pela família e pela sociedade. Disseram-me que ia viver uma aventura. Acontece que vislumbrei a felicidade que nunca havia tido e agarrei-me a ela. Nunca mais a larguei e ainda bem. Saí da minha zona de conforto, da minha casa, da minha cidade, anos mais tarde mudei de profissão. Ousei. Já lá vão dez anos e não estou arrependida.

O que posso eu dizer à professora Isabel? Que sigo escrupulosamente as suas dicas e estou a dar-me muito bem com esta terapia. Agarro os pequenos momentos felizes com unhas e dentes, vivo-os intensamente e transformo-os em grandes momentos, conheço-me e cuido-me muito melhor. Este novo eu que o tsunami regenerou, adquiriu paz, tranquilidade, harmonia e equilíbrio. Já não existem fantasmas nem assombrações.  Continuo a chorar e a sofrer, mas apenas quando me sinto impotente para resolver ou aliviar as dores dos que mais amo. As minhas dores, essas, aprendi a geri-las e a contorna-las. Quando as sinto, atiro-as para trás das costas e saio à rua para apanhar ar. E que bom é o cheiro da maresia do mar bravo da Póvoa! (esta história é, obviamente dedicada à professora de psicologia e aos seus alunos seniores. E que venham de lá mais gargalhadas!)

 

 

 

 

 

 

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