Histórias de silêncio e sons africanos

 

ouQ6Qj5[1]

Um dos aspetos que mais marcou a minha infância, em Moçambique, foi o silêncio. Não o silêncio noturno da cidade onde nasci e vivi quase até aos 11 anos, Lourenço Marques, porque nas cidades há sempre ruído, mas sim o do mato profundo, onde moravam os meus avós paternos e onde íamos passar o fim de semana, mês sim, mês não.  Eu era filha única e na casa dos meus avós, situada no meio do nada, a dois quilómetros de uma povoação chamada Taninga e a cem da capital, conheci a minha primeira espiritualidade. À noite, quando íamos dormir, ficava horas acordada, oferecendo resistência ao sono, para poder ouvir o silêncio, apenas entrecortado por um piar, um uivo e outros sons estranhos vindos lá de fora. Sentia um medo atroz que me paralisava o corpo, elevava as batidas do meu coração de menina e me fazia imaginar manadas de elefantes a caminhar ao longe, um leopardo gigante a circundar a casa ou um monstruoso tigre empoleirado na árvore próxima. Mas o silêncio da noite africana também me fazia encontrar com o Deus que a minha avó e a minha mãe me deram a conhecer. Não percebia como, mas lembro-me que algo mais poderoso, invisível e intocável, estava ali, comigo, não para me fazer mal, mas sim para me proteger. E, nesse instante, destapava o lençol que me cobria a cabeça e adormecia tranquila ao som do silêncio.

E assim foi em todas as minhas estadias no mato africano. Havia fins de semana, contudo, em que a minha relação com o silêncio e o divino era quebrada por outro tipo de sons que deixaram marcas profundas na minha memória e no meu coração. O meu avô Chico tinha uma machamba de perder de vista, com plantações de milho, trigo e bananeiras. Com ele, trabalhavam vários negros e as suas respetivas famílias que viviam nas palhotas que eles pediram ao “patrão” para construir, em detrimento das casas de alvenaria que lhes foram oferecidas. Nos sábados de pagamento das jornadas de trabalho, reuniam-se no areal que circundava a casa e, um a um, iam sendo chamados pelo meu avô. Eu assistia extasiada, à sessão, por um lado, por ouvir os inusitados nomes de alguns (lembro-me do Sabão Monjane, do Ernesto Boi, do Livro Mugaia e do Gil Pequenino Cueca Pedro) e, por outro, para observar as suas reações quando recebiam o dinheiro. Uns cantavam, outros dançavam, outros ainda riam de felicidade, desaparecendo num ápice assim que terminava o pagamento. Eu já sabia para onde iam. Enquanto as mananas levavam os filhos para casa, às costas nas suas capulanas, para preparar a sopa de camarão seco e amendoim, os homens acendiam a fogueira para o panelão do repasto, que a seguir era bem regado com a aguardente de cana de açúcar que os mesmos apanhavam e deixavam fermentar durante a semana. E era essa parte que eu mais gostava.  Vê-los a comer, a beber e a fazer a festa que os levava, já embriagados, a cantar e a dançar ao longo da noite à volta do fogo e ao som dos batuques, numa espécie de transe que lhes distorcia as caras e contorcia os corpos. Ia-me deitar cedo, porque ali a eletricidade não exista e a uma determinada hora os petromax que nos iluminavam à noite apagavam-se, mas não me importava. Porque era nessas noites que sentia o verdadeiro espírito africano. Não me encontrava com o meu Deus, mas com outros deuses que me permitiam adormecer, inundada de felicidade, ouvindo o silêncio da noite e o som da batucada e dos cantares das gentes da minha terra. E foi nessas noites, com esses sons, que criei as minhas raízes em África.

O meu avô gostava muito de caçar rolas e o meu pai acompanhava-o. Assim que saiam para a caça, deixava a minha avó Umbelina (Lina para a família) e a minha mãe Adelina (Lina para os amigos)  a tratar de um dos cabritinhos de criação da primeira para ser assado ao almoço (o ritual gastronómico domingueiro), com o objetivo de me aventurar pelas redondezas e, no meio do silêncio do mato, poder ouvir os tiros das caçadeiras. E contava-os, um a um, para saber o número de rolas que traziam. Aquele som fazia-me imaginar que em vez de rolas os homens da família regressavam com um búfalo às costas ou, na pior das hipóteses, uma das impalas que corriam ao lado do carro na viagem de regresso à civilização, num caminho de terra batida que, quando chovia muito, transformava-se num imenso lago, levando-nos a um isolamento obrigatório. Quanto às rolas, essas, eram depenadas e amanhadas sabiamente pela minha avó e fritas ao alhinho, para o lanche da despedida. Bebíamos Fanta e comíamos ainda o pão de ló, os pais-avós e os sonhos que eram a especialidade da dona Umbelina.

De vez em quando acordávamos ao som de grande algazarra e barulheira. Os empregados do meu avô gritavam “Milhafre patrão, milhafre!”. Já sabíamos o que era. O inimigo número um da minha avó tinha dizimado parte das suas galinhas e coelhos. Havia que mata-lo para não fazer mais estragos. O senhor Francisco Martinheira pegava na sua caçadeira, pedia um silêncio coletivo, que me fazia tremer de emoção, e lá ia ele de arma em riste preparado para eliminar o inimigo. Caçador exímio que era matava o milhafre à primeira, levando a uma ovação geral e aos gritinhos da sua esposa “Ai que lá se foram os meus meninos!”. Era um espetáculo maravilhoso aos meus olhos de criança, observar o milhafre a sobrevoar a casa, em tom provocatório,  e o meu avô a atingi-lo, ferido de morte. Os negros corriam a apanha-lo e a leva-lo à curandeira provavelmente para algum tipo de chicuembo. Lembro-me que um dia, já muito perto da minha despedida de África, a mulher mais velha e a mais respeitada do grupo, me deu um colar com um amuleto com uma erva que não me lembro o nome e dois olhos de milhafre…

No regresso à cidade, com o carro carregado de cachos de bananas, dúzias de ovos caseiros, um peru e várias galinhas que a minha avó acabara de matar, papaias, abacaxis, maracujás e goiabas do seu quintal, os meninos da machamba reuniam-se à volta do carro dos meus pais, para fazerem a festa da despedida, acompanhando-nos a correr na descida do topo da colina, onde se situava a casa, até às plantações, lá em baixo, rindo e gritando “Adeus patrão novo, adeus menina!”. Ia com esses sons no meu coração, na esperança de voltar a encontra-los e brincarmos todos juntos. Na última viagem que ali fiz, porque sabia que vinha a Portugal e sentia que já não voltava, vi o olhar triste do meu amigo António, o negrinho da minha idade que me ajudava a explorar a “floresta”, como eu lhe chamava, e ouvi a sua voz dizendo “Ambanine menina”. Ainda hoje, quando me lembro da minha terra africana, no silêncio dos meus pensamentos, ouço a voz do António. Nunca mais regressei a África, nunca mais ouvi o mesmo silêncio e ainda estou à espera de voltar a sentir a mesma espiritualidade que senti na minha infância. Continuo à procura de um lugar onde possa verdadeiramente reencontrar-me com Deus.

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s