Histórias de saltos altos e poder feminino

 

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Tenho uma amiga, 1,55 metros de gente, linda de morrer, a quem nunca vi saltos altos. Nem em festas e outros eventos, saídas noturnas e até no seu segundo casamento, ela dispensou as suas sandalinhas rasas, exibindo, orgulhosamente, a sua baixeza. Conhecemo-nos há mais de 27 anos, quando estava grávida do meu primeiro filho, com uma barrigona de quase nove meses e os pés inchados do calor dos finais de Junho no Algarve, e fui comprar umas sabrinas com um número superior ao meu, 41 biqueira larga. A Celita trabalhava na sapataria onde efetuei a compra, na baixa de Faro, e disse-me amavelmente a frase que eu já estava habituada a ouvir – “números maiores só de homem”…Fisguei-lhe um olhar fulminante, reparei nela, por ser baixinha, e ela reparou em mim, por eu ser alta e, na altura, avantajada. Fizemo-nos amigas, pouco tempo depois, quando comecei a sair à rua com o meu rebento, já desinchada e em estado normal. Desde então, sempre que estamos juntas, a minha amiga profere invariavelmente a mesma consideração – “ai Paula Martinheira, esqueci-me de calçar uns saltos altos, para estar um bocadinho mais ao teu alcance”…E rimo-nos das nossas diferenças de altura, do tamanho dos pés, das mãos.

Até há cerca de dez anos atrás, nunca usei saltos altos na minha vida. Aliás, usei em duas ocasiões. A primeira tinha eu uns 14 anos e obriguei a minha mãe a comprar-me, muito contra a sua vontade, parecendo adivinhar o desfecho da história, umas botas de cano alto vermelhas, de salto alto. Nessa altura, já tinha 1,75 metros e com os tacões cheguei seguramente aos 1,85. Estávamos em 1978 e a população feminina portuguesa era, em média, de estatura baixa. Uma rapariga com 1,85 metros dava nas vistas e era comentada. Mas eu não me importei com isso e lá fui eu para o liceu de Faro, ostentando as minhas botas novas (vermelhas ainda por cima). No meio do percurso, arrependi-me profundamente da minha compra quando ouvi a pior boca que uma adolescente podia ouvir na época. De um grupo de trolhas, saiu o impropério “Eh cavalona, onde deixaste o cavalo?”, que me despertou instintos assassinos e me fez maldizer a minha sorte, por ser tão grande.

Voltei a usar tacões aquando do casamento da minha prima Lurdinhas, pouco tempo depois. Era o evento mais importante da minha vida até então. Encomendei uma toilette em tons de salmão, de altíssima costura, à costureira dona Maria do Carmo, que tinha o seu “ateliê” no ´sítio do Besouro, freguesia da Conceição de Faro, onde eu morava, depois de ter visto dezenas de revistas de moda de Paris. Marquei, para o grande dia, cabeleireiro com o conceituadíssimo senhor Neto, que fez uma trança romana nos meus longos cabelos e, claro está, comprei saltos altos. Na sapataria, senti-me imponente. Os sapatos pretos, de salto agulha, faziam-se sentir a Stephanie Seymour (uma das modelos que admirava), dando-me a convicção absoluta que iria fazer sensação no casamento e encontrar o meu primeiro namorado. Foi uma tristeza. Causei sensação sim, mas devido à minha altura, afastei os rapazes giros que por lá andavam, mais baixotes do que eu. O único que me deu conversa foi o meu (grande) primo Vítor Melro. Mas esse era primo, não valia. E cheguei ao final da jornada sem namorado e com bolhas gigantescas nos pés que provocaram uma dor imensa sobretudo na minha alma.

Bani os tacões da minha triste vida, sonhando com o dia em que voltaria a usar uns saltos bem altos. Porque sempre fui a mais alta da turma, das mais altas do liceu, nem sempre arranjava um par mais alto que eu nos bailes dos anos setenta, e até nas discotecas sentia que destoava das outras. Casei com um homem apenas quatro centímetros mais alto do que eu, que não me deu hipóteses de grandes aventuras com sapatos, até que um dia a minha vida mudou, conferindo-me um poder desconhecido até então. Foi quando conheci o meu atual companheiro, há cerca de dez anos atrás, que me permitiu, do alto dos seus 1,90 metros, concretizar o projeto falhado da minha adolescência. Passei a usar saltos bem altos e um novo mundo surgiu à minha frente. Mais elevado, claro está, mas sobretudo com muito mais elegância, maior firmeza no passo, muitíssimo maior auto estima e, perdoem-me as não adeptas de saltos altos, uma sensação de poder inebriante. Os saltos passaram a ser a minha imagem de marca. Por onde andava, marcava presença. Passei a usar os vestidos e saias que nunca usei e até o meu pé número 41 pareceu mais pequenino e aconchegadinho. Nunca mais ninguém me chamou cavalona, porque entretanto as últimas gerações cresceram e os meus 1,75 metros tornaram-se banais.

Assim foi a minha vida de sonho até ao dia 26 de Março de 2016 em que um problema de saúde muito grave deixou uma sequela que os médicos asseguram ser irreversível, mas que eu acredito venha a ter um final feliz. O meu pé esquerdo deixou de mexer devido ao “adormecimento” do nervo peronial, obrigando-me a andar de sapatilhas com um foot-up. Recuperei o andar, mas arrumei no armário botas, sapatos e sandálias de saltos altos, os quais contemplo embevecida, prometendo-lhes que um dia destes ainda lhes darei uso…Odeio as sapatilhas que tenho, de modelo masculino ou unissexo, porque a falta de circulação no pé provoca-me inchaço, obrigando-me a calçar o 42, biqueira extra larga. O meu próximo objetivo é, por isso, fazer acordar o meu delicado pezinho para, numa primeira instância, andar melhor e numa segunda voltar a usar saltos altos. “Que grande panca que tens!”, dizem-me os mais chegados, havendo outros que entendem o meu sonho. Não a Celita, claro está, que nunca sentiu necessidade dos tacões para se afirmar, não é assim minha amiga?

 

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