Histórias de cães, tartarugas, amores e dissabores

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A minha relação com animais domésticos não tem sido linear ao longo dos meus 53 anos. A minha primeira experiência com este grupo foi o Sultão, um canzarrão enorme, dos meus avós maternos, que marcou a minha infância, em Moçambique. O Sultão era da raça Mil Flores, oriundo das Montanhas do Cabo, na África do Sul. Era lindo e imponente, de cor branca com manchas acastanhadas. Foi para a casa dos Vaz Palma recém-nascido, pelo que a minha avó alimentou-o a biberão. Era um animal pachorrento, inteligente e fiel. Lembra-me deitar-me em cima dele, de tão grande que era. Entrou numa tristeza profunda quando a minha avó faleceu, em 1972, tendo morrido quando o meu avô partiu, dois anos depois. Toda a família chorou a sua morte. Eu tinha quase dez anos.

Voltei a relacionar-me com cães anos depois, já em Faro, para onde fui viver com 12 anos. Alguém nos ofereceu o Jolie, filho de um pastor alemão e mãe rafeira. Era um cão lindo, dócil, brincalhão, que fazia as delícias do meu irmão Pedro, nove anos mais novo do que eu. Era o ai-Jesus da casa, mas um dia saltou o muro que cercava a casa dos meus pais, fugiu e teve uma morte violenta, trágica, inenarrável. Ficámos todos profundamente traumatizados. Durante anos, não tivemos cão. Até que um dia ofereceram-nos o Skooby, um cão grande, todo preto, que cresceu em casa e que nos causou muitos dissabores e constrangimentos. É que, depois de adulto, o Skooby adquiriu uma mania: cada pessoa que lhe fizesse uma festa, deitava-se imediatamente no chão, de barriga para cima e….esguichava uma “urinadela”. E sempre que o meu pai ia ao veterinário vaciná-lo, não hesitava em alçar a perna e molhar as calças de quem estivesse por perto. A primeira vez que tal aconteceu, o senhor Martinheira foi confrontado com a ira de um homem que estava na fila, na junta de freguesia local (onde o veterinário vacinava os cães da aldeia), por ter ficado com as calças encharcadas. O meu pai, que não se apercebera de tal coisa e não queria acreditar nas injúrias do homem, gritou-lhe alto e bom som que “o meu cão é um santinho, tem coração de passarinho”…Eu, que estava por perto, desmanchei-me a rir do episódio. Ainda hoje, quando os dois recordamos o momento, é risota certeira. O Skobby morreu de doença, por volta dos cinco anos, terminando, desta forma, o meu relacionamento com animais.

Muitos anos mais tarde, tinha o meu filho mais velho, o André, quatro/cinco anos, comprámos uma tartaruga, a Carlota, que cresceu desmesuradamente e já não queria estar no aquário, dando saltos quase suicidas para o chão para pesquisar novos mundos. Um dia, chegámos a casa e nem sombras da tartaruga. Revistámos a casa toda, os recantos, debaixo das camas, atrás dos móveis e nada. Ficámos desesperados. O meu filhote teve insónias nas noites seguintes, eu rezei uma oração ao santo não me lembro qual para que a bichinha aparecesse…até que um dia, estávamos a jantar na cozinha e aparece a dita cuja saída dos confins dos infernos, ou melhor, debaixo do frigorífico, onde se acomodou na respetiva grelha…Estava esfomeada…No fim-de-semana seguinte fomos dá-la ao Zoomarine, em Albufeira, onde o biólogo que a rececionou nos informou que, afinal era um…Carloto! Por lá deve andar, que as tartarugas vivem muitos anos. Muitos anos mais tarde o Carloto foi substituído por duas congéneres, que ofereci à minha filha Joana e que estabeleceram uma relação muito especial com ela. Andaram em bolandas entre Vigo/Faro, Faro/Póvoa de Varzim, em comboios, autocarros e de carro, ao colo da sua dona, que mantinha longos diálogos com elas. As tartarugas ficavam enlouquecidas quando a viam. Reconheciam-na perfeitamente e pediam-lhe comida. Um caso nunca visto que culminou com o seu crescimento e consequente entrega ao Parque Natural da Ria Formosa. A despedida foi dolorosa e teve direito a muitos beijinhos e votos de felicidades…

Depois de um longo interregno, em que a minha vida deu uma volta de 360 graus, recebi nos meus braços a cadela que iria marcar para sempre a minha relação com os animais e que, atrevo-me a dizê-lo, me salvou, durante um período negro e conturbado da minha existência. A Heidi, uma husky siberiana preta e branca, de olhos brancos azulados, arreganhou-me os dentes assim que me conheceu, tinha quatro anos. Estava magra e com as pontas das orelhas em chaga, devido às moscas que assolavam o sítio onde vivia, ao ar livre. Tratei dela, dei-lhe imenso amor e ela retribuiu-me de igual forma. Durante os seis anos que viveu comigo, tornou-se uma fonte inesgotável de paz. Era carinhosa, meiga, um poço de ternura. Transmitia calma e serenidade a todos os que privaram com ela. Nunca ladrou. Em Espanha, onde vivemos durante dois anos, os miúdos encantavam-se com ela, comentando “Mira mamá, el perro de las nieves. Parece un lobo!”…Morreu quando tinha dez anos, no anus horribilis da minha família, depois da morte da minha mãe e antes do falecimento da minha sogra. Tem sido um período penoso, de luto profundo, porque ela continua presente em todo o lado. Nunca pensei que a morte de um animal provocasse tamanha dor e sofrimento. Porque esta, de facto, foi uma verdadeira história de amor.

Recentemente, tomei uma decisão importante: voltar a ter um cão. A Akyra (palavra japonesa que significa inteligente), surgiu quase do nada. Uma ex-formanda minha postou algumas fotos no Facebook, de uma ninhada acabada de nascer, do seu casal Jack Russel. Foi amor à primeira vista. Trouxe-a para casa assim que a veterinária deu ordem para a retirar à mãe (ela e os irmãos não davam descanso às tetas da progenitora). Tem dois meses, ainda não sai à rua, mas a sua energia e hiperatividade, aliada a uma ternura imensa de bebé que gosta de dormir nos colinhos dos donos, enche-nos a alma e o coração. Estamos rendidos. Vivemos em função dela, esgotamo-nos por ela, acordamos ansiosos por vê-la, pegá-la ao colo, brincar com ela. Em suma, estamos a viver outra grande história de amor. A Kyra é uma lufada de ar fresco, a alegria da casa. Depois de um ano terrível, esta cadelinha está a ser o elemento regenerador das nossas vidas…(esta história é dedicada ao meu irmão Pedro e aos meus filhos André e Joana Martinheira…e também ao meu companheiro que em boa hora me trouxe a “menina Heidinha”). Porque todos temos uma história para contar sobre os animais da nossa vida…

 

 

 

 

 

 

 

 

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