Histórias de sabores, caril e chamuças indianas

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Uma das coisas que mais adorava fazer durante a minha infância, em Lourenço Marques, Moçambique, era ir com a minha mãe à loja do senhor Faruk e da esposa, um casal de indianos que vendia saris, sedas e outros maravilhosos tecidos e que, em três tempos, se fez amigo dos meus pais. A loja, situada na Avenida Massano de Amorim, era, só por si, fascinante aos meus olhos de menina. Pelos tecidos, cores, pulseiras (que são a minha pancada) e outros adornos, mas sobretudo pelo cheiro a caril que emanava do fundo do estabelecimento, onde a par de um espaço onde era guardado o stock, havia uma cozinha onde a proprietária fazia a comida para o marido e filhos. Assim que entrava na loja, transportava-me de imediato para a Índia, esse país místico e misterioso, cheio de cores e sabores.

A comunidade indiana (oriunda de Goa) que vivia em Lourenço Marques, tinha juntamente com a chinesa um significativo peso na vida económica e social da cidade. Aos domingos, juntava-se num jardim local. Os saris das senhoras, coloridos e dourados, exerciam sobre mim um fascínio único. A pinta vermelha na testa e o brinco no nariz das senhoras faziam-me querer ser indiana para ter a mesma aparência. Os chinelos e as sandálias das mulheres e meninas e os sapatos dos homens e rapazes colocados a um canto, causavam-me um misto de curiosidade e mistério. “A quem pertencerão estes? E aqueles? E porque é que eles se descalçam?”, questionava-me, imaginando histórias mirabolantes de aventuras, com um marajá no seu palácio real, que me obrigavam a vasculhar nas enciclopédias temas relacionados com a Índia.

Um dia, fomos convidados pelo senhor Faruk, para jantarmos na casa dele, porque uma das filhas fazia anos. Quando a minha mãe me deu a notícia, fiquei delirante de alegria. Porque ia conviver com os filhos do casal, que eu conhecia de vista da loja, e conhecer a casa de uma família indiana…Imaginei logo muitas velas e incensos espalhados pela casa, as deusas de que tanto gosto, elefantes decorativos, tudo decorado em tons de vermelho, amarelo, laranja e mostarda e…caril de qualquer coisa, não importava o quê… A minha mãe, como sempre fazia, lembrou-me mais uma vez “Ana Paula, tens que comer o que te puserem à frente, quer gostes ou não. Nada de dizer que não gostas. É comer e fazer um sorriso e dizer que está tudo muito bom!..

E lá fomos nós ao jantar do senhor Faruk . Era tudo como eu imaginara, à exceção da comida. Em vez do habitual caril de frango, fomos presenteados com mil e uma iguarias, bolinhos disto, bolinhos daquilo, qual deles o melhor, sempre a saberem a caril, obviamente. A refeição foi decorrendo assim, muita animada e divertida, até ao momento fatídico em que pensei que iria morrer, quando a esposa do comerciante apresentou uma travessa cheia de chamuças, ao que dizia o marido, a sua “grande especialidade”. Eu já tinha comido muitas chamuças ao longo da minha ainda, nessa altura, curta vida, pelo que peguei entusiasmada numa e…deixei de ver, de ouvir, entrei num mundo que me levava a um inferno cheio de chamas, labaredas gigantes…Olhei, desesperada para a minha mãe, que me trucidou com o olhar, como quem diz, “boca calada”, virei-me, num SOS de súplica para o meu pai e senti que ia embora para sempre, naquele instante. É que, o senhor Martinheira apresentava uma cor lívida e esverdeada, olhos esbugalhados de besugo acabado de apanhar, com a boca cheia de algo que tentava desesperadamente cuspir, mas não sabia onde nem como. E a anfitriã convidada a mais uma chamuçinha, o marido a enaltecer a mão que ela tinha para a cozinha, os filhos sorridentes e faladores e eu, com mais uma numa boca, a sentir-me numa sala de tortura da época medieval, ilustrada nos livros que lia.

O jantar na casa do Faruk não voltou a repetir-se, por imposição do meu pai que dizia que tinha visto a morte à frente e birra minha que jurava a pés juntos, à minha mãe, nunca mais na vida comer comida indiana. Quis o destino que, depois do 25 de Abril, as duas famílias se separassem, pensando eu, já com uma pontinha de nostalgia, que nunca mais iria ter qualquer relação com a Índia. Acontece que a minha mãe tinha pedido à esposa do senhor Faruk a receita do caril (felizmente que não foram as chamuças), e a partir daí foi sempre a sua grande especialidade. Encomendou durante anos o “verdadeiro pó de caril” a amigas que viviam em Londres, que o compravam numa loja de produtos indianos. A família reunia-se à volta de uma “carilada”, que muitas vezes substituiu o bacalhau com todos na ceia natalícia, que na casa dos meus pais e na minha nunca fez parte do ritual gastronómico da festa. A receita da dona Lina foi herdada pelo meu filho André, que a faz divinalmente, e seguida pelas minhas tias Téte, Clarinha e Mena, esta última especialista em caril de caranguejo. O caril está, por isso, institucionalizado na minha família. Mas não há momento algum em que eu o coma que não me lembre do verdadeiro alucinogénio que tomei na minha infância e que me provocou a maior trip da minha vida…

 

 

 

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