Histórias de salamaleques, bajulices e excesso de cavalheirismo

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Quando andava na faculdade, em Lisboa, tive um colega candidato a namorado que deu tudo a perder por excesso de cavalheirismo. Eu tinha 19, 20, 21anos, e ele um ano menos. A faculdade de ciências sociais e humanas da Universidade Nova de Lisboa era, no início dos anos oitenta, muito pouco convencional, talvez devido a alguns cursos “diferentes” que ministrava – Antropologia, Sociologia e, claro está, o meu, Comunicação Social. Grande parte do público discente apresentava, assim, um ar muito pouco formal, alguns até alternativo, bem diferente dos estudantes de Direito, Economia, Medicina de outras universidades. No meio deste cenário, a que eu, obviamente, não fugia, rapaz que se apresentasse diariamente de fatinho e gravata, com aparência very british, tanto na forma de vestir como na de falar e nos comportamentos em geral, era uma ave rara.

Teve esta ave o azar de se embeiçar por mim, que até era uma miúda gira e descontraída na altura. No princípio, achei-lhe alguma piada, mas com o passar do tempo, a coisa foi ficando para o torto. “Olá Paula, como estás?” era o cumprimento matinal quando nos encontrávamos, contrastando com o meu “Oi, tudo bem?”. Um belo dia, o alto, elegante e demasiado educado, na minha perspetiva, rapaz, convidou-me para a inauguração de uma exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, bem pertinho da nossa faculdade. Senti uma rejeição instintiva assim que o convite foi formulado com a maior fleuma britânica, não pela iniciativa em si, que até me pareceu bastante atrativa, mas pela forma como foi formulado: “Olha, Paula, quero convidar-te para assistirmos à inauguração da exposição de Almada Negreiros, no dia x às y horas, na Fundação Calouste Gulbenkian. Como é ao fim da tarde e nesse dia, ao que apurei, não tens aulas, posso ir buscar-te a casa e depois levar-te. O que achas?”….”Bolas, vade retro Satanás!”, pensei eu nesse preciso momento, imaginando-me a acompanhar o jovem cavalheiro que não fazia de todo o meu estilo, no percurso ida e volta da minha casa. “Tenho carro, não te preocupes”…frisou ele…Bom, esta notícia levou-me a pensar duas vezes, que até me dava jeito não ter que apanhar, sobretudo na viagem de regresso, o 36 que ligava o Campo Pequeno ao Lumiar, onde nessa altura vivia. E vai daí, aceitei levianamente o convite, levando o candidato a pensar, vim a saber mais tarde, que o “interesse” era recíproco.

O meu espanto começou assim que desci do prédio e vejo o tal rapaz a sair da viatura e, com o cavalheirismo pouco próprio de um rapaz de 19 anos, a abrir-me a porta com o inevitável “Olá Paula, como estás? Faz o favor de entrares!!. “Ah, não era preciso abrires-me a porta. Isso são coisas demodé”, respondi, na esperança de desincentivar o seu excesso de cavalheirismo que, passado algum tempo, começou a irritar-me profundamente, levando-me, um determinado dia, após declinar vários convites, a pôr os pontos nos is…O cavalheiro ficou desolado, mas passou-lhe. Seguimos os dois a carreira de jornalistas, ele muitíssimo mais famoso que eu, e um dia reencontrámo-nos no Algarve, onde eu vivia e trabalhava. O jovem de fatinho e gravata continuava de fatinho e gravata, com mais 20 anos em cima, mas com a mesma educação que eu rejeitei quando era jovem…”Deixa-me dizer-te que ainda estás mais bonita, com esses olhos verdes maravilhosos!”. “Bolas, continua igual”, pensei eu, quando numa breve conversa, contámos que tínhamos casado e tido filhos…”Devem ser tão bonitos como a mãe”, rematou, piscando-me o olho, um tique adquirido na era pós-faculdade.

Quando terminei o meu curso superior, tinha 22 aninhos, e iniciei o meu percurso profissional, deparei-me, para mal dos meus pecados, com outro tipo de comportamentos que odeio e rejeito: os salamaleques de algumas pessoas da então cidade provinciana de Faro (hoje está mais cosmopolita), bastante mais velhas do que eu, quando faziam questão em tratar-me por “dra. Paula Martinheira”. Ui, o que me arrepiava (e arrepia) essa designação! Passava a vida a pedir, a suplicar, “retire o doutora, por favor, é só Paula Martinheira!”.. Um dia, uma dessas personagens disse-me perentoriamente, deixando-me sem argumentos: “A Paula Martinheira é uma jovem licenciada, pelo que deve ser chamada de doutora. É assim que eu vou chamá-la e não se vai ofender por isso.O seu a seu dono!”. E assim foi. Deixei de me chatear, mas continuo a recusar. Quando abri a minha primeira conta bancária, assim que comecei a trabalhar, preenchi um formulário com os meus dados. Qual não foi a minha indignação quando recebi o meu primeiro livro de cheques e …lá estava o Dra. Ana Paula Martinheira! Fui a correr pedir para que me retirassem o dra. mas não foi possível. Durante anos, e após insistentes e infrutíferos pedidos junto da entidade bancária, sentia-me sempre constrangida a passar um cheque, pensando que quem olhasse pare ele pensaria “olha, esta está a pôr-se em bicos de pés”…

Conheci e lidei ao longo da minha vida, com muita gente que embora não sendo, gostava que lhe chamasse “doutores”, ao contrário de mim. E embora tendo consciência que eu sabia que não tinham canudo, admitiam e não retificavam, nas minhas barbas (que por acaso não tenho) que lhes chamasse assim. “Que lata, que sem vergonhice”, pensava eu, perante o peito inchado desse inqualificável grupo, que adorava bajulices. Para mim, os bajuladores são da pior estirpe que existe. Gente que passa a vida a baixar as calças para obter dividendos de uns e outros e subir de estatuto. São esses que fazem questão em chamar “doutores” aos licenciados e também aos que nunca puseram um pé numa universidade.

Bom, destes grupos todos, ainda vou tolerando (a idade também é outra) os gestos de cavalheirismo que alguns colegas meus “de uma certa idade” e da velha guarda, da universidade sénior da cidade onde agora vivo, Póvoa de Varzim, têm para comigo. Afinal, até sabe bem ter alguém que nos sirva o vinho à mesa, ou que nos dê passagem no elevador ou ainda que puxe a cadeira para nos sentarmos…Estarei a ficar velha??

 

 

 

 

 

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