História de asas, liberdades e espírito de desenrascanço

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Sempre fui uma menina mimada. Não é de admirar. Fui a primeira filha, a primeira neta, a primeira sobrinha. Nasci com 4, 100 quilos e 55 centímetros, com grandes olhos azuis e caracóis negros. Fui para um colégio privado aos 4 anos, para frequentar a primeira classe, porque aprendi com essa idade a ler e a escrever e a fazer contas de somar e diminuir com a minha avó Aida. Sempre fui muito grande, espertalhona e precoce. E filha única durante 9 anos. Era o ai Jesus dos papás, dos vovós e dos titios, pelo que até aos 18 anos fui uma verdadeira panhonha, uma menina do papá, tímida e enrascada.

Não fazia nada sozinha, porque tinha o meu pai atrás de mim a fazer tudo. Limitava-me a estudar (muito), a ser boa filha e boa dona de casa, que aos 12 já a minha mãe me obrigava a fazer caldeiradas de peixe e iscas com todas. Durante as férias tomava conta do meu irmão Pedro e os únicos pecados mortais que cometi até essa altura foram uns “trabalhos de estudo” que ia fazer à casa de uma amiga para poder sair à noite. Fui, aos 17, com um grupo de amigos a uma passagem de ano clandestinamente e em pânico, com medo de ser apanhada em flagrante, já que a versão oficial é que ia passar essa noite com os pais (cúmplices) da mesma amiga. Sonhava, por tudo isto, com o dia em que faria 18 anos, não porque atingia a maioridade e podia tirar a carta, mas sim porque se encerrava o capítulo de sufoco da minha vida anterior e se abria outro bem mais interessante e luminoso, de emancipação em relação aos meus pais e sobretudo de aquisição da liberdade que uma miúda de cidade provinciana (Faro), que ainda por cima residia numa freguesia rural (Conceição) , naturalmente não possuía. Estávamos no primeiro ano da década de oitenta, quando só tinham passados seis anos depois do 25 de Abril.

Comecei a delinear a minha ida para Lisboa, para prosseguir os meus estudos universitários, pensando que ia quebrar muitas regras, ir a todas as discotecas e bares da capital e arredores, arranjar muitos namorados, fazer o que me desse na real gana. E muito embora não confessasse nenhuma destas ilusões a ninguém, a minha mãe, perspicaz, lá ia dizendo a atalho de foice, “não te esqueças Ana Paula, que a verdadeira liberdade só se ganha quando se tem liberdade económica”…Irritada com esta teoria, ia imaginando a minha vida na capital lisboeta, a correr de aula em aula, de exposição em exposição, de cinema em cinema, de disco em disco, com um grupo imenso de colegas e amigos, a entrar e a sair de casa às horas que me apetecesse. No dia que soube que tinha sido colocada no curso que escolhera, Comunicação Social, na universidade que escolhera, a Nova, na cidade da minha liberdade, Lisboa, chorei de alegria e entusiasmo.

Os níveis de adrenalina começaram a disparar, tendo atingido o seu auge no dia em que fui comprar, com os meus pais, o enxoval para a “viagem de quatro anos”: Numa tarde resolvemos o assunto, tendo o meu pai largado os cordões à bolsa, ao investir uma nota em roupa e calçado apropriado, mochila, carteira e mala de mão novas, saco de viagem em pele genuína a condizer com o estatuto de menina universitária. Meses antes já tinha ido com a minha mãe matricular-me e alugar o quarto que iria ser a minha nova casa durante um ano. Finalmente chegou o fim de semana do transporte do enxoval e da “noiva” e a acomodação nas novas instalações. Almoçámos perto de casa, na Avenida de Roma, fizemos o reconhecimento do terreno, lojas e cafés que havia na zona até à hora da despedida. Foi o momento mais duro da minha vida. A euforia deu lugar ao medo. “O que será de mim, aqui nesta cidade, sem o apoio do meu pai?, pensava eu com os meus 18 aninhos recém feitos, imaginando-me, no dia seguinte, a enfrentar sozinha os autocarros, o metro, a universidade, os colegas, os professores. “Qual liberdade, qual quê?, questionava-me , quando depois de um pranto coletivo (nunca tinha visto os meus pais a chorar agarrados a mim), fui jantar, sozinha, um galão e uma torrada no café da esquina (o quarto não tinha serventia de cozinha). Nesse momento, arrependi-me seriamente de ter embarcado na aventura Lisboa. Preferia ter ficado na minha zona de conforto, na minha casa, na minha cidade, com a minha família.

Felizmente, foi sol de pouca dura, porque após o embate inicial do primeiro dia de aulas, já bendizia a minha sorte por viver na capital. Um novo mundo se abriu à minha volta e nos quatros anos seguintes muitos outros mundos se revelaram aos meus olhos, ditando a minha nova personalidade, muito mais extrovertida e comunicadora, responsável e com um elevado espírito de iniciativa e desenrascanço que muito me viria a servir na minha futura vida profissional como jornalista. O pardalito tímido e receoso de 1981 tornou-se uma ave confiante, de popa emproada e asas fortes, capaz de enfrentar tudo e todos em 1985. Os mimos pertenciam ao passado e a panhonhice foi totalmente eliminada da lista das minhas novas características. Não houve dia nenhum, porém, durante esse período, em que não sentisse saudade do colo da minha mãe e do ombro grande do meu pai…(esta história é dedicada à minha querida amiga, colega de liceu, de faculdade e de profissão), Maria Augusta Casaca, que foi o meu “ombro” em Lisboa….lembras-te, Gupa, do primeiro dia de aulas em que combinámos entrar juntas na nossa faculdade para enfrentarmos o “papão”?  Estavas tão assustada quanto eu…)

 

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