A dona Lina do meu contentamento

pais 001 - Cópia

A minha mãe nunca foi uma mulher bonita. Era relativamente alta para a época, mas de magricelas e enfezada na infância e adolescência (por alguma razão os colegas da escola lhe chamavam o “espirra canivetes”), passou para uma moçoila encorpada na sua juventude. Tinha presença e carisma. Casou aos 23 e presumo eu, contas feitas, deve ter-me concebido na noite de núpcias ou na lua de mel. Nasci exatamente nove meses depois. Tinha, contudo, um carácter único e apaixonante. Estudou até aos 18 e não seguiu a carreira da advocacia, a sua grande paixão, porque na altura as raparigas ficavam por ali.

.Estávamos no final dos anos cinquenta, início dos sessenta, em Lourenço Marques, onde o meu avô, militar,  assentou arraiais depois de um périplo que o levou, à mulher e aos cinco filhos, a Faro, Lagos, Cacela, Águeda, Elvas e Cabo Verde. A dona Maria Adelina (Lina), sendo a mais velha dos irmãos, nasceu em Faro e andou em bolandas de um lado para o outro, ajudando a criar os mais pequenos e observando o mundo e as gentes. Estas vivências marcaram profundamente a sua personalidade, sempre demasiado liberal, extrovertida e sociável. Incutiram-lhe também o gosto pelas narrativas e histórias que contava e encantava em qualquer ocasião e a qualquer pessoa. A minha mãe sempre teve o dom da palavra, foi uma comunicadora nata que lamentava, muitas vezes, não ter podido ir para um tribunal defender causas nobres e pessoas injustiçadas.

Mas, naquela época era assim e a dona Lina começou de imediato a trabalhar como rececionista do hotel mais chique da capital moçambicana, o Polana,  muito frequentado por turistas da África do Sul…sem saber uma palavra de inglês! Aprendeu com uma colega filha de mãe inglesa, que viria a tornar-se a sua maior amiga, a dizer apenas “Good Morning”, “Good afternoon”, “Good evening”, “Good night”, “Thank you very much” e “bye bye” o que, aliado à sua extrema simpatia e desenvoltura, lhe valeu o carinho da direção e a amizade dos turistas e clientes. Quando saiu de lá, o seu inglês era exatamente igual ao de quando entrou, o que levava a sua colega Dolores a questionar-se “como é que esta rapariga trabalhou durante anos na receção de um hotel falando meia dúzia de palavras da língua mais falada do Polana!”

Quando me teve, um descontrole glandular fê-la engordar. Lutou uma vida inteira contra a obesidade, fez dietas rigorosas, umas devidamente acompanhadas por médicos nutricionistas, outras perfeitamente malucas como a da banana (a que eu me recordo mais pelo inusitado que era)). Quando estava em regime alimentar ficava com a neura, em tempo “normal” era a pessoa mais divertida do mundo. Sem quaisquer complexos com o seu tamanho XXL, chamava-se “pequeno elefante” e tinha sempre um sorriso na boca, uma anedota para contar e era de gargalhada fácil. Irritava-se frequentemente com o meu pai, por ter um caráter literalmente oposto ao seu (o senhor Américo sempre foi um homem calado, reservado, tímido e introvertido), mas dizia que ele era o “homem mais bonito do mundo”. Às vezes, perante o mutismo dele, voavam alguns pratos pela cozinha, acompanhados da célebre frase (que os netos sempre recordam) “a minha vida é um inferno!!”, mas rapidamente se acalmava e voltava ao episódio anterior como se nada tivesse acontecido.

Da dona Lina,  herdei a mania das limpezas  e da ordem dos objetos , dos armários e das gavetas, (houve alturas, na minha vida, em que pensei sofrer um transtorno obsessivo-compulsivo tal era a minha preocupação por alinhar simetricamente as molduras e outros bibelôs, as almofadas dos sofás ou as toalhas dos toalheiros), das camas feitas na perfeição, com lençóis esticadérrimos, edredões e colchas sem uma ruga e também a mudança de móveis. Enquanto teve força física para tal, a minha mãe chamava o “Querido mudei a casa”, e numa tarde mudava a disposição dos móveis, tapetes, quadros e bibelôs, fazendo com que sala e quartos parecessem ter sofrido um refresh. Eu, extasiada, acompanhava-a nessa tarefa, indo apanhar flores campestres que espalhava por jarras improvisadas pela casa, para a devida inauguração. Ficávamos as duas, sentadas, a olhar para a mudança, constatando, em uníssono que estava tudo muito mais bonito…E riamos que nem umas perdidas!

Sempre conheci a dona Lina a fazer rendas e crochês. Eram toalhas para camilhas e mesas, colchas para ela e para o enxoval da filha, naperons para a cozinha, mesas de cabeceira, cómodas, consolas e tudo o que tivesse um tampo, de todas as cores e feitios, mais clássicas, mais modernas, que copiava das revistas do género. Todos os cantos da casa tinham um naperon, na cozinha ostentava meia dúzia deles: um grande para a mesa, outro para o frigorífico, mais três ou quatro  espalhados pela bancada, os quais eram religiosamente mudados todas as semanas. Com relativamente poucos recursos e mobiliário de média gama, a casa da dona Lina era elogiada por toda a gente que a visitava e comentava “que casa tão airosa e bonita tem! Que gosto!”. A minha mãe ficava toda ufana e piscava o olho à sua cúmplice das decorações. Foi outro dos legados que me deixou.

A dona Lina primava, por outro lado, pela inteligência e perspicácia, que me levavam ao desespero porque adivinhava os meus pensamentos e intenções, fingindo cair nas minhas inocentes mentiras de adolescência, quando queria sair à noite e ia para casa da minha amiga Guida Viegas “fazer um importante trabalho de estudo”. Como sempre fui muito boa aluna, qualquer assunto relacionado com História, Filosofia, Antropologia ou Sociologia tinha luz verde por parte do meu pai para ser executado. Mais sabia a dona Lina que o estudo era outro, obrigando-me a contar ao pormenor, quando regressava a casa, como tinha decorrido o trabalho, o que me levava a inventar penosamente muita coisa…Descobri, muitos anos mais tarde, já casada e com filhos, que a minha mãe encobria estas mentirinhas porque tinha confiança em mim e “sabia que te portavas bem e não te desviavas por maus caminhos”.

Via-a enfurecida comigo uma única vez na vida quando soube que, com dezassete aninhos acabados de fazer, namorava um “gabiru” seis anos mais velho do que eu. “Deixa esse vadiaço e foca-te nos estudos porque tens um curso superior para tirar em Lisboa, ouviste?”, gritou comigo uma manhã, adivinhando o meu percurso pouco feliz com o meu primeiro namorado, que se seis anos depois se viria a tornar marido e pai dos meus dois filhos. Nunca mais interferiu no meu relacionamento e quando lhe anunciei que estava de casamento marcado, olhou para mim serenamente e disse-me “quem boa cama faz nela se deita”. Até à sua morte nunca censurou ou criticou as minhas decisões, algumas delas erradas, afirmando laconicamente “tu é que sabes. És maior de idade”..

A dona Lina tinha  um coração do tamanho do mundo. Gostava e perdoava toda a gente porque via sempre o lado positivo das pessoas. Transmitiu-me, ao meu irmão e aos meus filhos, fortes valores morais e familiares. Antes da minha avó morrer, prometeu-lhe assegurar que a família estaria sempre unida, “sem guerras nem quezílias”. E assim foi. Passou a ser a matriarca, o pilar, a guardiã dos Vaz Palma. Unia e reunia a família, todos gravitavam em torno dela. Fazia-o com doçura e subtileza. Amava todos. irmãos, cunhados, cunhadas, sobrinhos, sobrinhas, netos, marido, filhos, genros e noras, primos e primas, vizinhos, colegas e amigos. Quem teve o privilégio de a conhecer lembra-se dela pela simpatia e bondade. Quem teve a honra de privar com ela, não a esquece mais.

Desde que faleceu, há três anos atrás, que a sua fotografia, com ar altivo e imponente, olha para mim na mesa de cabeceira do meu quarto. Falo com ela todos os dias, dou-lhe conta das minhas angústias, conto-lhe as minhas alegrias e as dos netos. Peço-lhe conselhos através de sinais. Não tenho conhecimento de que alguma vez me tenha mandado uma luz. mas curiosamente dou comigo a ouvir frequentemente, na minha memória, a sua voz a cantar “Vocês sabem lá, a saudade de alguém que está perto…” (uma das suas músicas favoritas). A dona Lina sempre cantava, quando eu era criança…tinha uma voz potente, mas simultaneamente melodiosa, alegre e feliz…Ai, minha mãe, como me custa não te ouvir cantar! Como me custa não poder pegar no telefone e contar-te as notícias cá de casa!. É duro, mas é a vida. Ficam as imagens, a voz, as conversas, os gritos, os choros, os sorrisos, as gargalhadas, as fotografias, as vivências, as recordações. E o que eu sou enquanto mulher e mãe. Porque cada vez mais sinto que estou parecida contigo (e ainda bem!)….(esta história é dedicada à dona Maria Adelina de Jesus Vaz Palma Martinheira, porque Maio é o mês de Maria, o mês das Mães).

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