Histórias do passeio dos tristes e relatos de futebol

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Até aos 18 anos, os meus domingos à tarde foram quase sempre odiosamente iguais. Logo após o almoço, os meus pais anunciavam: “vamos dar uma volta”. Neste caso, a volta era invariavelmente a mesma. Em Lourenço Marques, onde eu nasci, era o passeio pela marginal. Já em Faro, para onde fui viver com 12 anos, era até à praia. Sempre odiei estes circuitos dominicais. Não tanto pelo passeio em si, mas mais pelos relatos de futebol que era obrigada a ouvir, alto e bom som, durante a viagem, que o meu pai sempre foi grande adepto da modalidade, ligando o rádio assim que punha o carro a trabalhar.

 O pior é que ninguém podia falar, não fosse uma das equipas marcar um golo perdendo o sr. Martinheira, assim, decisivas jogadas. E lá ia eu, estrada fora, a ter que levar com o locutor da rádio, os comentários do meu pai “Isto é penalti!”, “Malandros, já fomos roubados” e os inevitáveis “GOLO, GOLO GOLO!!!!”, quando o Benfica marcava, e os gritos da minha mãe “Oh homem, ainda vais ter uma coisa!”..”Tirem-me daqui! Quero ir-me embora!”, pensava eu, achando que eram todos uns egoístas e não queriam saber da filha para nada.

Mas o mais entediante para mim, que fui filha única durante nove anos, era o facto de, terminados os odiosos relatos, o meu pai encostar o carro e bater uma bela sorna, com direito a roncadelas e tudo, e a minha mãe dedicar-se com afã às suas rendas e crochês, deixando-me completamente à deriva a olhar para a paisagem e a maldizer a minha sorte. A viagem de regresso era bem melhor, já que na rádio passavam músicas fixes, achava eu, nessa altura, como as do Nelson Ned “O que é que você vai fazer domingo à tarde….”, da Natacha “Já arranjei muito bem tudo quanto convém para a praia levar” ou, mais tarde, do José Cid “vem, viver a vida amor, que o tempo que passou não volta não…..”, que eu trauteava, sabendo as letras de cor. Às vezes, é certo, íamos até ao Restaurante Zambi, ponto de encontro dos laurentinos, e o programa era bem mais animado.

Fiquei profundamente traumatizada com a banda sonora dos relatos de futebol, pelo que, quando tinha os meus 15 anos e já pelo na venta, resolvi rebelar-me, barricando-me no meu quarto, num domingo à tarde, quando me ordenaram que fosse passear à praia, provocando o caos familiar. “Não vou, não vou e não vou! Não estou para ouvir relatos!”, gritava eu, histérica, do outro lado da porta, obrigando a uma drástica intervenção do meu pai, que nunca vira tão enfurecido, de mão aberta em riste, ameaçando bater-me. A minha mãe aliava-se ao marido, aconselhando “obedece ao teu pai Ana Paula, que ainda levas um sopapo!”, perante o olhar assustado do meu irmão, de seis anos. Achei por bem acatar a ordem, não fosse o diabo tecê-las, peguei no livro que supostamente iria ocupar a minha tarde em casa, enfiei dois algodões nos ouvidos, rogando pragas aos deuses que estavam contra mim, maldizendo a minha sorte e ansiando por atingir a maioridade. “Quando tiver 18 anos, tudo isto vai acabar”, vaticinava eu, não imaginando que, sete anos depois, viria a casar com um jovem ligado ao futebol, que me levava “romanticamente” a passear, aos domingos à tarde, até à praia de Faro, obrigando-me a ouvir… relatos de futebol…As minhas súplicas nos primeiros tempos, as ameaças depois, não surtiram qualquer efeito, pelo que um dia decidi por termo à situação. Só voltei a ir para a praia de Faro com o objetivo de ir à praia e recusei entrar num carro onde se ouvisse relatos de futebol. O trauma, esse, permanece até hoje, pelo que desligo imediatamente o rádio assim que ouço um relato. Entro em stresse.

Chamo o passeio dos tristes a este programa domingueiro que as famílias fazem, normalmente a zonas de praia. E é dos tristes porque nunca vi ninguém a exaltar de alegria e animação. tal como eu quando era criança e adolescente. Metem-se no carro, aos domingos, logo após o almoço e aí vão estrada fora, a 30 quilómetros à hora, com ar sonolento e esgotado, em romaria, entupindo o trânsito e enlouquecendo os condutores “normais”. Vivo numa cidade de praia, Póvoa de Varzim, e a cena repete-se, muito embora com ligeiras diferenças porque as gentes do interior, dos concelhos próximos como Barcelos ou Famalicão, entre outros, vêm almoçar à cidade com o objetivo de comer, imagine-se…frango assado. E depois do franganito, inicia-se outro glorioso (para eles) percurso até à marginal para ver o mar e sabe-se lá para quê mais.

 A Avenida dos Banhos e toda a marginal até Vila do Conde transforma-se numa imensa procissão de carros que em vez de 30 vão agora a 10 quilómetros à hora, porque a via está bem recheada de lombas. Não estou a falar dos meses de Verão, porque o cenário muda radicalmente de figura (para pior). Com todo o devido respeito para com estes passeantes domingueiros (grupo a que eu também pertenci), tenho a dizer que ainda não percebi qual o prazer de circular de carro com a famelga, em câmara lenta. Outro aspeto que ultrapassa o meu entendimento tem a ver com o facto destes domingueiros vestirem as melhores fatiotas para vir à Póvoa. É comum, por isso, em relação aos que conseguem estacionamento e passeiam a pé pela marginal, ver circular fatos e gravatas, vestidos de casamento, lantejoulas e dourados bem reluzentes. Já não oiço relatos de futebol, mas como moro a dois minutos da praia e quase em frente ao estádio de futebol do Varzim, não são raras as vezes em que apanho um susto a ouvir um sonoro e coletivo “GOLO!!!!!!”. O futebol persegue-me e o passeio dos tristes também…

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