Histórias de modistas, vestidos e de uma rapariga que não queria aprender

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Se há coisas que sempre me fascinaram é o mundo das costureiras, muito embora hoje, com 53 anos, só saiba coser botões. A minha avó paterna era costureira e bordadeira. Durante a minha adolescência tentou ensinar-me as artes básicas da costura, mas a minha atenção não durava mais de cinco minutos. Enfureci-a argumentando que “o tempo que passo aí, leio um livro”. “Um dia, vais casar e não sabes fazer nada!”, vaticinava. Já a minha mãe foi rainha de rendas e crochés. Passava os tempos livres a fazer naperons, colchas e toalhas, inspirando-se em maravilhosas revistas da especialidade. Tentou, em vão, iniciar-me com as agulhas e linhas, mas a minha paciência tinha limites. Aos 23 anos cosi com todo o esmero e dedicação, um buraco de uma peúga., cujo proprietário andou coxo durante uma semana devido a uma dolorosa bolha no dedo grande do pé. Acabei por identificar a origem da lesão quando olhei para a gigantesca bola feita em linha, fruto da minha desvairada intervenção.

No entanto, em criança exaltava de alegria quando a minha mãe me dizia “Ana Paula, vamos à modista! “.  Eram sempre programas interessantíssimos que me faziam saltar das bonecas e outras brincadeiras em três tempos. Íamos as duas de machibombo (autocarro) até à casa da dona Leopoldina, em Lourenço Marques, e ali ficávamos, por vezes tardes inteiras, a debater os desenhos que a senhora esboçava num caderno de papel A4, de acordo com as indicações que a minha mãe lhe dava. Os tecidos, esses, já a dona Lina os havia comprado nas lojas dos indianos, que monopolizavam aquele tipo de comércio na capital moçambicana, vendendo as melhores sedas, brocados, rendas, tafetás, popelines, chitas e bordados ingleses. Estávamos nos anos 60, numa época em que quase todas as senhoras mandavam fazer os vestidos, saias, casacos e blusas às modistas, sobretudo as mais gordinhas, como a minha progenitora, que nessa altura ainda não havia tamanhos XXL.

E que maravilhosa era a casa da dona Leopoldina! Que mágico era, aos meus olhos de menina, o seu ateliê de costura, com um enorme figurino de madeira à entrada, em tamanho real, um espelho gigantesco, uma máquina de costura da marca Singer (como a da minha avó), uma mesa grande, de madeira também, onde a modista cortava os tecidos, uma carpete no chão coberta de linhas e bocadinhos de tecido e dois cadeirões pequenos para as clientes se sentarem! As tesouras, os saquinhos às cores feitos de tecido e enchidos com areia, onde eram espetados os alfinetes de cabeça coloridos, as linhas de tantas cores, de carros grandes e pequenos, as fitas métricas e um bloco de papel com um lápis a carvão, onde a costureira apontava o nome e as medidas das senhoras, cujas folhas arrancava juntando ao desenho da roupa, e os tecidos, lisos e mais sóbrios uns, estampados às riscas, às flores, com desenhos geométricos outros compunham um mundo de cor e criatividade que enchiam os meus olhos de criança. E havia ainda os das risquinhas e das bolinhas, os meus preferidos sabe-se lá porquê. E ali ficava eu, encantada a observar a primeira prova, a mais desinteressante, a segunda e muitas vezes a terceira, a dos ajustes, a pensar que um dia iria fazer a roupa das atrizes famosas que eu conhecia da revista “Plateia”, que nessa altura os meus ídolos eram a Ursula Andress, na versão loura, e a Raquel Welch, na versão morena.

A minha mãe sempre se vestiu muito bem. Quando eu era criança, tinha uma variedade imensa de vestidos, saias, blusas e camisas confecionados pela dona Leopoldina. Desde cedo, iniciou-me nas lides das costureiras. Apesar de alguma roupa que eu usava ser trazida pelas minhas tias, da África do Sul, onde as moçambicanas laurentinas mais jovens iam comprar as últimas tendências da moda, a dona Lina tinha a mania de me impor vestidos. Andei nestas andanças até aos 10 anos, altura em que abandonei um país tropical e passei a viver no continente, sendo obrigada a usar calças, camisolas e casacos. A dona Lina deixou temporariamente as modistas tendo recomeçado esta estreita relação quando fomos viver para Faro., tinha eu 12 anos. Desta vez o alvo recaiu sobre a dona Maria do Carmo, que morava na zona da Conceição, relativamente perto da minha casa. Mal sabia eu que esta senhora viria a ter um papel preponderante na minha vida (muito mais do que na da minha mãe), pois foi ela que confecionou os vestidos que todos os sábados dos meses de Julho e Agosto dos quatro anos seguintes. estreava nos bailes das redondezas.

A minha mãe “contratava-me” à hora para eu lhe passar a ferro a roupa de casa e com esse dinheirito lá ia eu à Casa Cristina ou à Casa Verde, as duas lojas mais conceituadas de Faro, comprar os tecidos para os maravilhosos vestidos que exibia nas noites dançantes com o objetivo de fazer face aos modelos de Paris que as “franceguesas” ostentavam em Agosto e que punham em perigo o meu sucesso junto da fauna masculina local. Casamentos e batizados eram acontecimentos de extrema importância na minha vida, pelo que estudava e planeava minuciosamente os “modelitos”, sobrecarregando a escrivaninha do meu quarto com as revistas Marie Claire, Cláudia, Figurino e Manequim, de onde saiam ideias luminosas. No Verão, lá ia eu e as minhas primas Isabelinha e Lurdinhas percorrer quase diariamente a pé mais de dois quilómetros até à casa da nossa costureira para supervisionarmos a confeção dos vestidos. No caminho apanhávamos folhas de amora a pedido do meu irmão Pedro, com menos nove anos que eu, para dar de comer às largas dezenas de bichos da seda que criava em caixas de sapatos e que eu odiava (mas isso são outras histórias)…

Quando fui estudar para Lisboa, quebrei os laços com as modistas, apesar de continuar a escolher os tecidos que a minha mãe comprava na Casa Cristina e a impor os feitios da roupa dela. E não raras vezes ia carregada para Faro de tecidos mais giros que encontrava nas lojas da capital, onde a oferta era bem maior. Foi aos 23 a última vez que recorri aos serviços de uma modista, desta feita a dona Laura, que morava na Rua de São Luís, em Faro, para confecionar o vestido mais importante da minha vida: o meu vestido de noiva. Nos anos 80, as raparigas farenses já compravam os vestidos feitos. Na altura, havia uma estreita ligação com as cidades espanholas fronteiriças de Ayamonte e Huelva, pelo que o mulherio ia não só comprar caramelos e géis de banho, mas também roupa diferente. Algumas amigas minhas adquiriram ali os seus vestidos de noiva. Não segui a onda e andei meses a projetar o meu vestido, tendo incumbido a dona Laura dessa nobre tarefa. O resultado final ficou além das minhas expetativas, apesar de nunca mais ter lá voltado, a não ser acompanhada da cliente mais fiel, a minha mãe.

Nos seus últimos dez anos de vida, a dona Lina rendeu-se aos encantos das grandes cadeias de lojas com tamanhos grandes, abandonando quase em definitivo às suas visitas à modista. Quanto a mim, nutro especial simpatia pela dona Guida, a costureira que, desde há alguns anos, na Póvoa de Varzim, faz os arranjos e as modificações à roupa da família e cuja lojinha visito a pretexto de uma blusa que se descoseu ou de umas calças que têm de levar um fecho novo. E ali fico, na conversa com a dona Guida, observando com o mesmo fascínio de criança, a roupa a deslizar nas agulhas da máquina, embevecida com a miríade de tecidos espalhados pelas prateleiras e ao mesmo tempo frustrada por nunca ter tido apetência para qualquer trabalho manual….Não sei pegar em agulhas de tricô, o ponto cruz é um verdadeiro enigma e tenho em altíssima consideração as minhas amigas que fazem tapetes de arraiolos. Não me ajeito a fazer embrulhos e desconheço como se faz um laço de prenda…Sou um desastre!

 

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