História de uma árdua corrida com barreiras

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A corrida com barreiras sempre foi das modalidades do atletismo que mais me fascinou. Pela força, velocidade e coordenação da corrida com a transposição dos obstáculos. Acho que a vida, numa visão simplista, também é assim. É preciso ter força, ser-se veloz em determinados momentos, para não ficarmos para trás, correndo o risco de perder a corrida ou mesmo desistir, e saber coordenar o nosso caminho com os pedregulhos, montes e montanhas que por vezes temos de escalar. Isto tudo sob chuva diluviana, tufões e tornados que parecem querer levar-nos para outras dimensões.

Faz hoje um ano que a vida não me sorriu. A morte espreitou-me, estive quase a dar-lhe a mão, mas resolvi ficar por cá. Desde então, tenho vindo a desempenhar a maior prova dos meus 53 anos. Porque a corda que me prendeu à vida, tem balanceado e resistido a uma tempestade imensa. Hoje, cinco dias depois de ter começado a Primavera, veio a bonança. Estou calma, tranquila, em paz. Celebro a vida e o que ela me proporciona, agarro-me às pessoas que me amam e me deixam amá-las da mesma forma. Apesar de ter dificuldade a andar, ainda não ter grande força física, dificuldades na fala e escrita, sorrio para a vida e agradeço não sei bem a quem ter tido a oportunidade de ficar por aqui, muito mais fortalecida interiormente, capaz de enfrentar o mundo, com uma corrida mais veloz e de ultrapassagem de todas as barreiras que o destino me colocou.

Muitas pessoas têm comentado comigo: “O que te aconteceu deve ter sido um golpe terrível!”. Sim, foi um golpe, mas não terrível. A vida virou-me do avesso, mas endireitou a minha razão e o meu coração. Uma pessoa que me conhece bem disse-me várias vezes: “tu vives as coisas com intensidade máxima e amas não só com o coração, mas também com as vísceras”. Pois é, vivia e amava. No passado. Uma das coisas muito boas que o “golpe” me proporcionou foi viver e sentir mais serenamente e enxotar os dissabores, as chatices, as pessoas menos boas que pululam à minha volta com um espanador de plumas, suave e subtilmente. Antes, gritava, chorava, praguejava, maldizia a minha sorte, consumia-me de dor. Ao fim de um ano de aprendizagem interior o meu lema é “deixa lá isso” e “tudo se há-de resolver”….Reconciliei-me com o meu passado, estou numa ótima relação com o presente, tentando viver o melhor possível um dia de cada vez, e penso no futuro com otimismo, porque o que está mal irá compor-se. E não é que sou muitíssimo mais feliz hoje?

Para tudo na vida é preciso ter coragem. Até ao 26 de Março de 2016, dia em quase sucumbi devido a um trombo embolismo pulmonar, seguido por um enfarte e, no espaço de uma hora, a três paragens cardiorrespiratórias, que me levaram ao hospital em estado de quase morte, achava que não era uma mulher corajosa. Hoje, vistas as coisas de uma forma mais objetiva e racional, considero, sem sombra de dúvida e sem falsa modéstia, que sou uma brava e lutadora guerreira.

Adaptei-me quando, quase aos 11 anos, deixei a minha infância em África e fui viver para Almada, deixando o meu país, a minha casa, a minha escola, a minha família, os meus amigos. Estávamos no Verão quente de 1974 quando chegou a Portugal a primeira grande leva de pessoas vindas das ex-colónias, depreciativamente chamadas de “retornados”. Foi esse o rótulo que ostentei na testa quando regressei à escola e era a única da turma “de fora”. Gozavam comigo: “és da terra dos pretos”, “és preta”, “como é que fazem os macacos lá na tua terra?”, eram frases proferidas até à exaustão por miúdos desconhecedores da situação e naturalmente cruéis. Aguentei-me à bronca, sem vacilar. Tinha 11 anos. Voltei a aguentar-me quando no Verão de 1975, eu menina de cidade, fui viver para um aldeia do concelho de Faro, atrasada no tempo e nas mentalidades. Gente de fora era alvo de grande curiosidade e “essa moça retornada” era demasiado “prá-frentex”. Porque andava de calções curtos, socas e blusas abertas nas costas. Aguentei-me à bronca e dei a volta por cima. Tinha 12 anos.

Voltei a enfrentar tudo e todos quando aos 23 anos, decidi casar. Afirmei a minha posição e segui uma viagem destituída de qualquer laivo de ousadia que durou vinte longos, penosos, corrosivos e desgastantes anos, que marcaram profundamente a minha saúde física e mental, provocando feridas que ainda não sararam. O final desta história foi mau. Muito mau mesmo, obrigando-me a sucessivos atos de coragem que quase me fizeram soçobrar. Fui-me levantando, aos pouquinhos, lentamente. Mudei de vida, mudei de cidade, encontrei paz e estabilidade. E quando já tinha a meta à vista….a vida resolveu pôr-me mais uma vez à prova. Talvez para testar a minha capacidade de luta e de força. Ou não. Sem querer filosofar, acho que as coisas não acontecem por acaso. Tudo tem uma razão de ser. Lá dizia a minha mãe, católica, que “Deus escreve direito por linhas tortas”. Os caminhos sinuosos, esses, já aprendi a percorrê-los. Afinal, para tudo na vida, é preciso ter coragem…Hoje celebro a vida. Estou de bem com ela. E afinal, esta história, tem um “The End” feliz….

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