História de um pai parecido ao Gregory Peck

pai

Sempre ouvi a minha mãe dizer que se apaixonou pelo meu pai, nos bancos da escola, em Lourenço Marques, tinha ela 18 e ele 22 anos, por ser parecido com o Gregory Peck. “Era o meu ator favorito, por ser alto, moreno e espadaúdo”, dizia-me muitas vezes, com ar brejeiro, piscando-me o olho. Pelos vistos, a minha mãe tinha especial preferência por homens altos, mas o meu pai, apesar dos seus 1,85 metros de altura, não tinha nada de espadaúdo. Era um magricelas e não tinha a musculatura suficiente para poder competir com o Peck ou com o Cary Grant, por quem a minha mãe também tinha especial apetência. Mas o Américo Martinheira tinha duas coisas que a minha mãe gostava de realçar e que punham os dois atores a milhas de distância – uns olhos pretos rasgados e uma boca de lábios grossos que legou ao neto André, o meu filho mais velho. Isto tudo para dizer que o meu pai sempre foi um homem bonito, que eu gostava orgulhosamente de apresentar às minhas colegas e amigas.

No princípio dos anos setenta, aderiu à moda e passou a ostentar umas magníficas patilhas que, juntamente com a popa com que sempre o conheci, dava-lhe um ar de Elvis Presley, que a minha mãe tanto admirava. Só lhe faltava cantar o “Love me tender”, que a esposa gostava. O meu pai nunca soube cantar, mas assobiava muito bem, pelo que, brincava a minha mãe, “vai dar ao mesmo”.“O teu pai sempre foi um galã”, dizia ela, mas exclusivamente pela sua aparência física, que o sr. Martinheira sempre foi um homem pacato, que gostava de estar em casa, com a mulher e filhos. “É perigoso ter um homem bonito ao nosso lado. Quanto mais bonito mais cobiçado”, referia ela, sublinhando, sem ponta de tristeza ou mágoa, que “ainda por cima, nunca fui um espanto de mulher”. Não teve razões de queixa a minha mãe, pois nunca conheci ao seu Gregory Peck nenhuma aventura. A dona Adelina não era, de facto, uma mulher bonita, mas tinha uma presença marcante e irradiava alegria e boa disposição. Era extremamente simpática e extrovertida, de sorriso e gargalhada fáceis. Onde ela estava, havia sempre uma história, uma anedota, uma piada. Ao contrário, o sr. Américo, sempre foi para o calado e introvertido, pelo que, acho eu, os dois encaixavam. Estiveram juntos, entre namoro e casamento, durante 55 anos.

Quando era pequena, até aos seis, sete anos, gostava de dormir a sesta com o meu pai, porque antes de adormecer contava-me histórias que ele inventava, cujo principal protagonista era o Macaco Simão. Era sempre ele que me ia buscar à escola e, desde cedo, elevou a fasquia no que diz respeito ao meu rendimento escolar. Era bastante exigente com as notas, o que elevou a minha vontade de alcançar objetivos e ser a melhor ou, pelo menos, uma das melhores. Eu não me importava, porque sabia que a recompensa era motivadora e enchia-me de felicidade: um olhar a rebentar de orgulho, um amplo sorriso de satisfação e a inevitável frase “Muitos parabéns”. No meu 5º ano, em Lourenço Marques, oferecia-me um sorvete de baunilha sempre que eu tirava um Muito Bom.

Os meus pais nunca foram dados a grandes prendas, nem quando eu fui filha única durante nove anos. Mas recordo com imenso carinho o primeiro relógio que o meu pai me ofereceu, quando terminei a quarta classe com nota final de Muito Bom, uma máquina de escrever (que ainda tenho) quando concluí o nono ano com a média final de 5 e a carta de condução assim que finalizei a minha licenciatura (a média já não foi tão elevada mas a prenda veio na mesma). Mas o bem mais precioso que o meu galã me deu tem sido mesmo o seu amor e a total entrega, disponibilidade e generosidade em relação a mim e aos seus dois netos, o André e a Joana. Sempre foi o meu protetor e o meu guarda costas em períodos mais tenebrosos da minha vida. Nunca o ouvi dizer um “Não” taxativo, nunca me virou as costas quando eu tomei decisões menos acertadas. Sempre esteve ao meu lado, nos bons e nos maus momentos. E isso é bom.

Hoje, o galã de outros tempos continua a ser um homem garboso, de cabelos cor de neve, alternando uma aristocrática bigodaça com uma barba de velho lobo do mar. Com 81 anos, evoluiu com os tempos e tornou-se adepto das novas tecnologias. Navega na internet, domina e tem uma presença ativa nas redes sociais, adaptou-se à informática e tira selfies (por continuar a achar-se, presumo eu, um homem ainda bonito). Nunca o questionei sobre a “admiração” que a minha mãe sentia por certos atores de Hollywood, que a faziam suspirar, sabe-se lá de quê…Um dia destes vamos ter uma conversinha os dois…(esta história é dedicada à Dona Adelina Martinheira, que já não está entre nós, e ao meu pai, Américo Martinheira). Porque hoje é 19 de Março, Dia do Pai.

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