História de uma viagem de avião sem regresso

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Durante a minha infância, em Lourenço Marques, Moçambique, um dos rituais domingueiros dos meus pais (e dos outros seguramente), era, após o almoço, visitar o aeroporto. Subíamos ao andar superior, onde havia um grande terraço, e ali ficávamos a olhar os aviões que descolavam e aterravam, os carrinhos de transporte das bagagens, os autocarros que levavam os passageiros de e para a aerogare, as escadas que se montavam junto às aeronaves, as pessoas que subiam e as que desciam, enfim, toda a parafernália própria do aeroporto de uma capital. E eu, que sempre fui muito sonhadora, imaginava que um dia, quando fosse grande, iria viajar por esse mundo fora e ter uma profissão que não me obrigasse a estar numa sala fechada. a bater à máquina, como os meus pais. Não sabia, nessa altura, que perto dos 11 anos, a minha primeira viagem de avião nunca mais teria bilhete de regresso e iria mudar a minha vida para sempre.

No dia 25 de Abril de 1974, tinha eu 10 anos e frequentava o 5º ano, no Liceu Dona Ana, uma ala só para raparigas do Liceu Salazar, que à época. não havia mistura de géneros no espaço escolar, quando terminei as aulas, à tarde, deparei-me com uma manifestação de pessoas gritando “Abaixo o fascismo”. Uma palavra que desconhecia e que pedi ao meu pai, que me esperava à porta, para decifrar. “O fascismo é a ditadura”. Ainda mais intrigada, voltei à carga: “e o que é a ditadura?”. “É o regime imposto por Salazar”. “O António Salazar, cuja fotografia estava na minha sala da escola primária? Aquele homem que olhava para nós enquanto cantávamos o hino de Portugal?”, questionei. “Esse mesmo. O regime já não existe. Está a acontecer uma revolução em Lisboa. Escuta, ouve a rádio”. aconselhou-me o Sr. Martinheira, enquanto sintonizava o rádio do carro para ouvirmos uma canção chamada “Grândola, Vila Morena”, que eu também nunca tinha ouvido. O meu pai virou-se para mim, depois de estacionar o carro à porta da nossa casa, e concluiu, com um ar pensativo que nunca mais me esqueci: “A partir de agora, Paula, tudo vai mudar. A nossa vida vai mudar”. Só viria a entender esta afirmação meses mais tarde.

Esse era um dia de festa na família. A minha tia Teresa, que morava no mesmo prédio e no mesmo patamar onde eu vivia, apartamentos contíguos, faz anos a 25 de Abril. Havia bolo de aniversário e champanhe para brindarmos. As minhas outras duas tias maternas e os quatro primos que tinha na altura, reuniram-se na casa dela, onde esperámos pelo meu avô Alfredo Vaz Palma, militar reformado. Quando este chegou, notei que vinha com cara de caso. E logo após cantarmos os parabéns, proferiu, com ar e tom de voz solenes: “Este é um dia imensamente feliz para mim. Para além da minha filha Teresa fazer anos, hoje é dia da Revolução. Uma revolução de cravos e não de sangue. Abaixo a ditadura! Abaixo o fascismo! Viva o dia 25 de Abril!”. Abriu-se de imediato o champanhe, encheram-se os copos, o meu inclusive, e brindámos à tia Tété e a Abril. A partir desse momento o meu avô, que vim a saber muito mais tarde, era um homem de esquerda, passou a viver intensa e emocionadamente os acontecimentos políticos do continente e após um almoço com colegas militares, de comemoração à revolução, teve um AVC. Faleceu pouco depois.

A partir desse instante, comecei a aperceber-me de estranhas movimentações familiares. Um dia, ao jantar, os meus pais comunicaram-me: “Paula, vamos passar umas férias a Portugal. Vamos tirar uma licença graciosa  de três meses para conhecer melhor o país. Começamos em Lisboa e terminamos em Faro”. UAU! Que emoção! Conhecer Portugal! Já tinha estado no continente quando tinha quatro anos, mas vim de barco e regressei de barco, sendo que na viagem de vinda, com os meus avós e as minhas tias Mena e Clarinha, surgiu-me o sarampo e estive praticamente encerrada no camarote a curtir a doença das pintinhas. É das poucas recordações que tenho da visita à metrópole. Desde logo, comecei a pensar nas cidades e sítios onde gostaria de ir, sobretudo Lisboa, a capital, a sede dos Descobrimentos, e que apenas conhecia dos livros de Geografia e dos filmes das inaugurações presidenciais e outras cerimónias de alta importância, que passavam antes do filme a sério, no Cinema Manuel Rodrigues, onde eu ia ver os “Aristogatos”, “A Branca de Neve e os Sete Anões” e outros, mais pesados,  com a espanhola Sarita Montiel. que faziam chorar baba e ranho a minha avó Aida.

A minha ansiedade aumentou quando a minha mãe um dia me comunicou: “vamos comprar roupa para as férias”. Enchi-me de alegria e felicidade, que nessa época já gostava muito de “coisas novas”. Foi um fartote de tecidos para a modista, a dona Maria da Luz, fazer-me vestidos de todas as cores e feitios, com fitinhas e botõezinhos, blusinhas curtinhas e sem costas, calções e calças, pijamas e chinelos de quarto, “que vamos ficar em casa de primos e temos de usar roupa interior bonita”. Foram dias emocionantes esses em que vi o meu guarda roupa renovado. E o meu irmão, que tinha dois anitos em 1974, igual. Mas foi pouco antes de 18 de Junho, o dia do embarque, que a minha emoção ficou ao rubro. Uma tarde, eu, o meu mano e a minha mãe, fomos comprar a roupa para a viagem. Pela primeira vez, a dona Adelina deixou-me escolher. Fomos a uma loja modernaça, com muitas novidades, e eu escolhi umas calças à boca de sino azuis, uma blusa vermelha e um casado curto azul a condizer. E pela primeira vez também, tive direito a umas socas de madeira, com algum salto, às riscas azuis, vermelhas e amarelas. O afã foi muito nesse dia. A minha mãe a fazer quatro malas grandes e a deixar as coisas em casa “preparadas”. Preparadas para quê?”,perguntava eu, desconfiada com tanta azáfama. “Preparadas para o depois”, respondia-me ela laconicamente.

O dia da viagem foi dos mais marcantes da minha vida. Lá fomos nós para o aeroporto fazer a “grande viagem”, o “grande voo” que me iria transportar, mal sabia eu, ao futuro. Fomos de carro com um tio, a restante família atrás para se despedi. Chegámos à zona das partidas e o meu coração começou a acelerar. Depois do check in, chegou a hora da despedida. Abraços, beijos, lágrimas. “Daqui a três meses estamos de volta”, dizia eu, sem compreender a tensão instalada no grupo. A minha tia Clarinha pediu-me “Paulinha, antes de entrares no avião, respira fundo, sente o ar de Moçambique pela última vez e grava na memória o que vês e sentes”. “Prometo tia!”. E assim foi. O voo da minha vida estava prestes a acontecer. Subi as escadas atrás da minha mãe e do meu pai com o meu irmão ao colo, virei-me para trás. vi o aeroporto ao longe e reparei no sol da tarde. Alaranjado, intenso, único, diferente. Nesse momento, tomei consciência, na minha inocência dos 10 anos,que aquela viagem não teria regresso. Cheguei à metrópole um dia depois. Nunca mais voltei à minha cidade, ao meu país, a África. Aos 18, fui para Lisboa estudar jornalismo. Fiz muitas viagens depois disso, muitas delas graças à minha profissão, e nunca tive um trabalho de escritório.

 

 

 

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