História da mamana negra Joaquina e do filho António

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Joaquina era uma mulher negra que vendia massarocas de milho na rua. Desde que me lembro, via-a sempre com um filhote às costas enrolado numa capulana. Pensava eu, na minha ingenuidade infantil, que era sempre o mesmo e não crescia, ao contrário de mim. Constatei, a partir dos oito anos, que, afinal, a mamana ia tendo filho após filho e criava-os enquanto pequeninos num tapete estendido na Avenida Augusto Castilho, em Lourenço Marques, onde nasci. Enquanto puxava de uma teta e amamentava a sua cria, assava o milho num fogareirinho ao lado, que mantinha sempre aceso. Era o meu petisco favorito.

Sempre que conseguia arranjar uma quinhenta e escapulir-me da casa dos meus avós ou quando acompanhava o meu avô Alfredo no seu whisky diário ao bar Malhanga, ao lado do Pavilhão Malhangalene, cenário de disputadíssimos jogos de hóquei ou de luta livre, lá ia eu comprar uma massaroca besuntada com manteiga que se derretia nos meus lábios e dedos e me consolava a alma. Mas o que gostava verdadeiramente era ouvir as histórias da negra Joaquina, que a minha curiosidade, na altura, era já percussora da minha veia jornalística.

A mamana, que aos meus olhos de criança, era já entradota, tinha um aspeto imponente. Vi-a sempre sentada, não lhe conheci a altura, pelo que achava que era gorda. Percebi, a determinado momento, que o tamanho resultava das suas gravidezes quase ininterruptas. O que eu gostava mais era sentar-me ao lado dela e ouvi-la falar dos nove filhos, todos do mesmo homem, que tinha uma banca em Xipamanine (o bairro chunga da cidade, nas redondezas do aeroporto), onde vendia batatas, cebolas e afins. Os filhos, esses, vendiam amendoins na rua, abastecidos pelo pai (os mais velhinhos, que é como quem diz, a partir dos seis anos).

Conheci bem o António, o mais velho, mais ou menos da mesma idade que eu. Às vezes, acolhia-se junto da mãe e pegava no irmão mais novo, que passava o dia enrolado na capulana, nas costas maternas. Conversávamos um com o outro. Eu queria saber tudo, onde vivia, como era a casa (palhota), os irmãos, a avó velha que tomava conta dos meninos quando deixavam a mama da mãe e enquanto não tinham idade para ir para a rua, a escola que não frequentava; ele…não perguntava nada. Com o seu sorriso branco, de gengivas alaranjadas pela raiz com que a mãe o obrigava a lavar os dentes, o António, em três anos, só me pediu uma coisa: “arranjas-me uns sapatos iguais aos teus?”. Olhei para os meus sapatos e de repente apercebi-me que o meu amigo andava descalço, com as solas dos pés duras e calejadas e com unhas por cortar. No dia seguinte, ofereci-lhe uns chinelos de borracha vermelhos, todos janotas, porque sabia que ele era benfiquista, e um boné verde porque eram as cores da bandeira de Portugal.

Um dia, a negra Joaquina avisou-me: “O António já não vem aqui menina”. O filho andava a fazer outra zona da cidade, “com gente fina, compram mais”. Levei muito tempo sem o ver. Joaquina lá me ia contando a sua vida difícil e sobre a tuberculose que atacara a “velhota”. “Foi chicuembo menina, foi chicuembo que lhe fizeram”, explicando de forma simples que foram os maus olhados de terceiros que provocaram a doença. Com a mãe hospitalizada e os filhos pequenos, a minha amiga das massarocas viu-se obrigada a mudar de atividade. Deixou de aparecer e perdi-lhe o rasto.

O António, esse, viria a encontrá-lo, algum tempo mais tarde, no dia em que o então presidente da República, Américo Tomás, visitou Lourenço Marques, para uma importante inauguração. Estava eu e os meus pais a assistir à comitiva presidencial na Avenida da República, a mais central da cidade, com multidões a empunhar bandeirinhas de Portugal, nos passeios de um lado e do outro, quando me apercebi que ao meu lado estava um senhor muito bem-posto, de fato e gravata, a quem um negrinho tentava vender amendoins: “amendoim senhô”. O homem sacudiu o menino com um irritado “desaparece daqui mufano!”, dando uma sapatada no grande alguidar branco que o vendedor empunhava. Os amendoins espalharam-se pelo chão, as pessoas espezinhavam-nos acotoveladas, e de repente, quando me baixei para ajudar o menino, vi uns chinelos vermelhos que me eram familiares. Levantei a cabeça e reconheci o António, de lágrimas a rolarem cara abaixo e ranho a assolar o nariz. Esgueirou-se entre a multidão e nunca mais o vi. A Mamã Joaquina voltei a vê-la pouco tempo depois, na Avenida Gomes Freire, onde moravam os meus avós, ainda com um filhote às costas, a vender amêijoas. “Amijuáaaa”, gritava alto e bom som, com o alguidar na cabeça carregado de grandes e vistosos bivalves. Comuniquei-lhe: “vou-me embora Joaquina, vou para Portugal e se calhar não volto mais”. Joaquina pousou o seu ganha pão no chão e deu-me uma quinhenta. “Anda, vai comprar uma arrufada…seu eu pudesse ia contigo. Boa sorte menina”…Nunca mais regressei à minha cidade nem ao meu país. Já passaram 43 anos.

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