História de uma mulher que nunca saía à rua sem luvas

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A minha avó Aida era uma mulher pequenina. Um 1,55 metros de gente, mas gigante de coração, bondade, inteligência e elegância. Nunca saía à rua sem luvas, casaco comprido, saltos altos e batom. Fazia máscaras para o rosto com claras de ovo e passava meia hora diária deitada com rodelas de pepino e batatas nos olhos para combater as rugas e aliviar as olheiras. Esmagava os rebuçados antes de os dar aos netos, “porque os meninos podem-se engasgar”, escrevia cartas aos soldados da guerra colonial para lhes “alegrar a vida” e poemas para a secção literária do jornal da cidade, e contava-me todos os dias as Histórias da  Menina Luisinha, que me levavam a viajar por mundos encantados, de fadas, duendes, príncipes e princesas, onde não havia bruxas más e todos os finais eram felizes. O que eu sou devo-o a ela.

Era a pessoa mais desarrumada e desorganizada do mundo, mas estrelava os ovos de uma forma tão especial que ainda hoje conservo o seu sabor único e exclusivo. Improvisava verdadeiros cabazes de comida sempre que um pobre lhe batia à porta, faceta que quase a santificou na comunidade local. Tinha um pequeno santuário em casa e foi diante dele que me ensinou a rezar o pai nosso,  a avé maria  e o anjinho da guarda e a forma como se deve praticar a cristandade. Invocava a Santa Bárbara sempre que havia relâmpagos e trovões, tapando todos os espelhos que havia em casa e não deixava ninguém entrar no quarto do seu menino, Manuel, o único rapaz entre cinco irmãos, que pilotava aviões no norte de Moçambique, uma das zonas mais quentes da guerra do Ultramar.

Teve seis filhos, uma morreu aos nove anos, restaram cinco, que criou sozinha com as malas às costas, de cidade em cidade, de país em país, seguindo as comissões de serviço do marido, que era militar. Filha de pais divorciados, nascida em Lisboa, andou em bolandas, ora com a mãe ora com o pai, sem vida estabilizada até casar, com um jovem militar que a levou a viver de um lado para o outro, nas comissões de serviço e a deixar a sua marca. Foi tendo filhos quase em cada sítio onde assentava – Faro, Cacela, Lagos, Cabo Verde. Antes esteve em Elvas e Águeda e, por fim, Lourenço Marques, onde nasci e onde a perdi. Deixou uma dezena de netos, mas só conheceu quatro. Se fosse viva, contaria seguramente as Histórias da Menina Luisinha aos seis bisnetos.

A minha avó Aida de Jesus Vaz Palma era “A Mulher”, que há 53 anos sigo fielmente, sem me deixar corromper. Dela recordo sobretudo o sorriso permanente, a pele aveludada de menina e não de avó, as mãos e pés pequeninos e sapudinhos, o pó de arroz num boião em cima de cómoda, que sacudia na cara sempre que saía de casa, nem que fosse para ir à esquina, os vestidos e respetivos casacos a condizer, do mesmo tecido, porque “uma mulher deve sempre sair à rua com a máxima elegância” e da paciência e tolerância. Paciência sobretudo com o marido, que impunha em casa o seu natural regime militar, mas que ela sabia contornar doce e subtilmente dando-lhe a volta. Vivia em sobressalto com as filhas mais novas, as minhas tias Mena e Clara, adolescentes e jovens que me criaram, e que viviam o frenesim dos anos sessenta, em Moçambique, onde tudo era mais liberal e menos preconceituoso. Rezava todos os dias uma oração à Virgem Maria para que nada acontecesse ao seu Manelinho, e um terço “pedindo por todos os que cá estão e os que já se foram”.

Dela herdei a pele de pêssego e o gosto pelos cremes faciais, pela leitura e sobretudo pela escrita. Ensinou-me a ler e a escrever com quatro anos, pelo que enchia-me de livros infantis para treinar e incentivar a minha imaginação. Dela herdei também a força, coragem e teimosia para enfrentar e contornar os caminhos sinuosos da vida e para não me conformar com a infelicidade. “Deus escreve direito por linhas tortas e o que parece hoje muito mau amanhã será melhor, nem que seja porque nos deu mais força e coragem para o próximo embate”, sempre a ouvi dizer. Ver sempre o lado positivo das coisas e das pessoas foi ela quem me ensinou. “Nunca devemos julgar ninguém e muito menos apontar o dedo. Todos temos telhados de vidro”, foi uma frase que um dia proferiu e cujo significado me explicou detalhadamente porque me intrigou essa história dos telhados de vidro. Alegava também que não podemos ter sentimentos vingativos para com ninguém “porque a vida encarrega-se disso”, citando um velho provérbio árabe que diz “se queres vencer o teu inimigo, senta-te à porta….e espera”.

Morreu precocemente com cancro de pele. Tinha 64 anos. Na véspera da sua morte, fui visitá-la ao hospital. Impressionou-me pegar nas suas mãos que, quase de repente, deixaram de ser gordinhas e passaram a ser esguias, com os ossos à vista. Sorriu-me e disse-me “Paulinha, nunca deixes de ser quem tu és”. “Prometo avó”. O dia seguinte e os que se seguiram, dias, meses, anos, foram duros. Levei muito tempo a falar com ela, a pedir-lhe sinais para a minha vida, a chorar porque já não estava aqui e eu precisava dela. Até que no dia 26 de Março de 2016 e os que decorrem desde então, a minha avó Aida transformou-se num anjinho e salvou-me a vida.

 

 

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