A história de uma menina que pensava estar grávida com quatro anos

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A minha filha Joaninha sempre foi muito pespeneta, muito serigaita, muito saidinha das cascas. Constatei essa faceta assim que nos encontrámos pela primeira vez, isto é, assim que ma pousaram no meu peito logo após ter nascido e, por incrível que pareça, estava de olhões bem abertos, a observar-me curiosa, parecendo questionar-se “esta é que é a minha mãe?”. Não sei se foi uma desilusão ou uma surpresa agradável para ela. A mim, ocorreu-me de imediato o pensamento “esta menina vai ser muito inteligente”. E, de facto, sempre foi, mas não é esse lado dela que quero realçar.

A precocidade e, mais tarde, a maturidade, sempre caraterizaram a minha Joana Margarida. Aos seis meses já tinha um vocabulário significativo, aos oito começou a andar, com ano e meio já corria atrás do gato Nicolau, fazendo trinta por uma linha ao pobre felino, que suportava os arremessos da miúda e mesmo assim mantinha-se fiel, sem nunca ter mostrado as garras. Isto tudo sob o olhar complacente do avô Américo e da avó Lina, que a criaram até aos 3 anos. A minha menina desde muito cedo também começou a manifestar sinais de uma personalidade bem vincada, nas monumentais birras que fazia quando era contrariada e através do boneco tipo nenuco que andava sempre com ela, o qual por dá cá aquela palha voava contra a parede e para o chão sempre que a sua “mamã” se chateava com ele. Como o desgraçado não respondia às injúrias proferidas (“és estúpido” “és mau”), a fúria aumentava e lá ia o pobre nenuco num voo quase picado contra o outro lado do compartimento, com banda sonora e tudo, magistralmente interpretada pela avó “Minha Nossa Senhora, que esta miúda parece ter o diabo no corpo” ou “ai que lá se vão os meus bibelôs”…

Aos três anos monopolizou o quarto que partilhava com o irmão, mais velho, o qual foi obrigado a mudar-se de armas e bagagens para a marquise da sala, que teve de ser adaptada em sala de jogos e brincadeiras. O rapaz, coitado, não gostou da ideia, já que durante sete anos foi ele o rei e senhor da habitação (“esta moça roubou-me o quarto”, queixava-se”), mas sem fazer grande alarido e com a mente livre de ideias vingativas, que sempre foi um miúdo calmo e, na altura, resignado com a sua sorte. Também com essa idade a Joaninha foi para o infantário e começou desde logo a desenhar figuras femininas, muito altas, magras e elegantes que, pouco tempo depois, veio a constatar-se eram o prenúncio de uma relação duradoura, mas muito conflituosa, com as bonecas Barbie, com as quais criou um mundo próprio. Ora a minha filhota sempre foi uma rapariga muito extrovertida, muito faladora, com grande imaginação, criatividade e uma inusitada capacidade de comunicação, argumentação e retórica. Aprendia palavras e captava frases dos adultos num ápice e depois aplicava-as ao seu mundo. As personagens do “filme” eram, claro está, as barbies e os ken , cada um com o seu nome, e a ação baseava-se nas relações conturbadas entre o grupo. Havia namoros, casamentos, zangas, represálias  e  reconciliações, tudo numa zona territorial bem definida, que ela criava em casa ou na dos avós, e (isso é que era pior e mais embaraçador para mim), nos restaurantes, cafés, casas de amigos…Lembro-me que havia uma Júlia, uma Rosália, um Pedro e um Gonçalo (este presumo que representasse o Gonçalo, o primeiro namorado que teve, no infantário, um lourinho de olhos azuis, que parecia um anjinho e era o mais bonito da sala, que a minha filha sempre foi muito seletiva com os rapazes). Provavelmente havia mais nomes, mas estes eram os atores principais da novela.

Ora, uma bela tarde, estava a avó da criança a tentar passar pelas brasas no sofá da sala – missão quase impossível porque a neta não parava de falar e gritar com os seus amigos imaginários – quando de repente as antenas começaram a vibrar e o espanto assolou o seu semblante ,despertando-a da siesta e para a vida, que não queria acreditar naquilo que estava a ouvir. “Olha lá, oh Júlia, então achas que estou grávida? Grávida estou, mas não posso estar do Gonçalo e do Pedro ao mesmo tempo! Isso é impossível, ouviste???”… A avó Lina, incrédula, perguntou à neta saidinha das cascas: “oh Joana, então estás grávida?”, ao  que esta respondeu sem ponta de dúvida: “claro que estou, mas não posso estar do Gonçalo e do Pedro ao mesmo tempo!”…O sono, a partir daí, deu lugar a uma vigília permanente da avó, para tentar perceber até que ponto chegava a promiscuidade da neta e seus compinchas. A história da suposta gravidez foi relatada até à exaustão por toda a gente que a ouviu, marcando a vida da minha filha ao longo dos anos  e o relacionamento que os adultos tinham com ela, “porque esta miúda não pode ter quatro anos”…Não imaginava ela nem eu que esta precocidade e maturidade lhe valessem, seis anos mais tarde, o primeiro grande tombo que a vida lhe deu e os outros que se seguiram… (esta história é dedicada, obviamente, à minha Joaninha, que no dia 7 de Março de 2017 faz 20 aninhos).

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