Histórias do Zorro e do Diabo

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Nunca fui muito dada ao Carnaval. Não me lembro (e não tenho qualquer registo fotográfico) de alguma vez me ter fantasiado ou colocado uma máscara durante a minha infância. Lourenço Marques, cidade onde nasci e vivi quase até aos onze anos, não tinha grande tradição carnavalesca. Também não me lembro das minhas duas tias, muito jovens na altura (anos sessenta) andarem na azáfama do Carnaval, pelo que a minha primeira experiência nesta quadra festiva foi já em Faro, aos 12 anos, quando subia e descia a Avenida 5 de Outubro, que dá acesso ao Liceu, em verdadeiro estado de pânico, fazendo um rali de curvas e contracurvas quase em contra relógio, para não apanhar os ovos que alguns rapazes estrategicamente situados entre as árvores, enviavam às cabeças das raparigas mais incautas como eu.

Foram anos de terror, ansiedade, medo e raiva os que eu vivi naquela majestosa avenida, palco de tantas outras peripécias, e ao mesmo tempo de alguma invejita aguda por não ter a personalidade descontraída e o espírito carnavalesco de algumas das minhas colegas que, nesses dias, levavam roupa apropriada e uma suplente nas mochilas para enfrentarem a pesada artilharia do público estudantil masculino. Eu cá não achava piada nenhuma e no dia em que não consegui escapar ao furioso ataque do “bando de malfeitores”, fui para casa empapada numa mescla de claras, gemas e farinha que um deles fez o favor de me colocar na cabeça por cima da omelete. Os meus longos cabelos castanhos de repente tornaram-se meio alourados, parecendo adivinhar o futuro. Acontece que eu não vivia em Faro, mas sim numa freguesia dos arredores , o que me obrigava a apanhar a camioneta no terminal rodoviário, junto à doca de recreio e, mais grave ainda, atravessar a Rua de Santo António (a rua das lojas e o local mais cosmopolita da cidade , ponto de encontro local), num autêntico suplício.

Nesse dia cheguei a casa e comuniquei à minha mãe: “A partir de agora, passo a faltar às aulas  na semana do Carnava!”. A dona Adelina soltou um berro “Nem pensar em faltar às aulas, ouviste bem Ana Paula?”. Não me dei por vencida, apesar de ter plena consciência de que quando a minha mãe me chamava Ana Paula era sinal que o vento não estava a correr de feição para mim A partir desse momento decidi ficar gravemente doente nesses dias e passei a ter um ódio terrível ao Carnaval e aos rapazes em geral. Nos anos seguintes, reconciliei-me não com o ataque de ovos, mas sim com a quadra em si quando a minha prima Isabelinha , que vivia comigo, decidiu que íamos mascaradas a rigor ao baile de Carnaval de Bordeira, outra freguesia do concelho, que sempre teve uma relação íntima com o Entrudo. Nessa época, anos setenta, as raparigas das freguesias rurais costumavam frequentar os bailes de Verão e os do Carnaval. Eu, que não me considerava “moça de campo”, ma sim de cidade, e que estava na Conceição de Faro, por acaso, alinhei nos bailes porque me davam a oportunidade de dançar, ainda por cima com par, ao som das bandas que eram contratadas para o efeito e que tocavam muito bem as músicas de sucesso.

A proposta da minha prima pareceu-me, por isso, muito interessante, pelo que fomos no dia seguinte comprar tecidos e adereços para fazermos os trajes que nessa época os chineses ainda não tinham invadido o mundo. Depois de muita discussão sobre os temas dos mesmos, decidimos mascararmo-nos  (que originalidade!) de zorro e diabo. Fez-se um sorteio e eu fiquei com o zorro e a Isabelinha com o diabo. E lá fomos nós, todas entusiasmadas com a Lurdinhas  (a irmã mais velha da Isabelinha), e nossa prima Fernandinha, devidamente acompanhadas pela mãe desta, a prima Ludovina, e os avós da Isabelinha, os meus tios Etelvina e Luís,  que nesses anos, rapariga que se prezasse não ia a bailes sozinha, devendo levar um séquito de gente atrás.  Os familiares ficavam sentados a vigiar as suas meninas, não fosse o caso de algum rapaz mais atiradiço encostar-se demasiado nos slows ou meter a mão em local inapropriado. Eu tinha nesse Carnaval 14 anos já bem altos e constituídos e embora nunca tivesse ido aos bailes com os meus pais, não permitia tais afrontas a rapaz nenhum.

Acontece que nesse ano, a organização do baile permitiu que os mascarados entrassem de cara tapada, o que nos deu azo a estabelecermos uma combinação secreta que, no epílogo da noite, deu os seus frutos , provocando a ambas ataques de gargalhadas que perduram até hoje sempre que nos lembramos do episódio. Eu entrei de zorro, toda vestida de negro, chapéu, botas, capa e espada à cintura e mascarilha na cara, ela de preto e vermelho, com a cabeça e cara tapadas (com a obrigatória abertura nos olhos, nariz e boca), com uma bandolete com dois corninhos negros e com uma foice na mão. Tudo a rigor e nos conformes. Entrámos, os rapazes junto ao bar, a tentarem perceber quem nós éramos. Ficámos a um canto para que não nos identificassem através da família. E assim que a música começa a tocar fomos logo convidadas para dançar por dois rapazes que apareceram do nada e num ápice porque já nos tinham fisgadas seguramente. O par da Isabelinha era para o baixote, o meu era alto, que eu dava sempre tampas a rapazes mais baixos do que eu (às vezes a coisa saía para o torto, porque só quando me levantava é que constatava o desnível e depois já não podia voltar atrás) e música após música lá íamos rodopiando com os mesmos espécimenes porque eles dançavam bem e porque dava-nos pica resistirmos às suas investidas para saber que éramos. Às insistentes perguntas “tu és de onde? “que idade tens?”, “costumas vir aos bailes de Bordeira?”, “andas no liceu ou na Tomás”?, nós respondíamos com total mutismo como se tivéssemos feito uma promessa, atiçando ainda mais a curiosidade dos moços, pouco habituados a filmes tão secretos.

Antes da meia noite, era obrigatório que os participantes do baile destapassem as caras para que todos pudessem ver quem era quem. Ora eu e a Isabelinha saímos sorrateiramente antes dessa hora, rumo à casa de banho, onde metidas num cubículo, ela em cima da sanita, eu fora, trocámos de indumentárias. Saímos airosas, de cara destapada, expostas ao mundo e logo a seguir…aí estavam eles a convidarem-nos para a dança final e para a revelação do mistério. É obvio que o baixote, assim que começou a dançar comigo, ficou muito embaraçado, perguntando-me insistentemente “mas tu há pouco eras assim tão alta ?” ou rematando “bolas, macacos me mordam, como é que não reparei que eras mais alta do que eu!”. Eu fiz uma representação teatral tão bem improvisada que o pobre do rapaz ficou todo baralhado e decidiu afogar-se no álcool junto ao balcão. Já a Isabelinha, essa, nunca esteve tão feliz da vida, porque desta feita calhou-lhe um rapaz alto e espadaúdo, muitíssimo intrigado, “porque quase jurava que tu eras mais alta”. “Estás enganado, eu desde pequenina que sou muito alta”, contestou ela. Quando voltámos para casa  e nos dias e meses seguintes, tivemos uma contratura muscular no diafragma e um descontrole das mandíbulas das horas que passámos a rir dos ingénuos moços a quem enganáramos no baile de  Carnaval de Bordeira. Afinal, era Carnaval e ninguém levava a mal…No ano seguinte, voltei a ser totalmente humilhada na Batalha das Flores, em Loulé, que pensava eu era um Carnaval só de flores e afinal atiraram-me um ovo à cara, que quase me deixou cega (pensava eu), surda e muda de tanto gritar “estúpidos”, “selvagens” e “energúmenos!”…A minha relação com o Entrudo terminou por aí até ser mãe e render-me aos encantos dos palhacinhos, dos índios e das princesinhas…

 

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