Histórias de vizinhos/amigos vizinhos/inimigos

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Os vizinhos são peças importantíssimas das nossas vidas. E tanto podem tornar-se amigos e aliados , como também transformarem-se em inimigos e fazerem da nossa existência um verdadeiro inferno. Ao longo da minha vida, quase sempre passada em prédios de apartamentos, tive variadíssimos tipos de vizinhos. Os que raramente via e nem sequer um “bom dia” me diziam, os que raramente via mas sempre me cumprimentavam com um  caloroso “Olá, como está! Tudo bem?”, os que nunca conheci embora sabendo que coabitavam no meu edifício, os que via todos os dias e a quem nunca ouvi a voz, os que me obrigavam frequentemente a ir bater-lhes à porta com o inevitável  pedido “podem fazer menos barulho, por favor?”, mas eram porreiros, os que frequentavam a minha casa e eu a deles, os que me iam pedir “arranja-me uma chávena de sal? “, “por acaso tem um limão que me empreste?”, “preciso de um saca-rolhas, trago-lhe já” e depois….os que durante anos me chagaram a vida e me provocaram total desestabilização emocional.

Durante a minha infância, em Lourenço Marques, vivemos em prédios diferentes, com duas famílias de vizinhos que, mais do que isso, foram verdadeiros amigos dos meus pais. Uma amizade que perdurou durante muitos anos após a vinda para o continente, em 1974,  dos nascidos, como eu, e dos que viveram e trabalharam uma vida, como os meus pais, os meus tios e avós, naquela cidade. A dona Otília, o seu marido e os três filhos, e a dona Maria da Luz, o seu marido, mãe e dois filhos, eram pessoas encantadoras com quem nos dávamos como  se fossem família. Passei quase nove anos da minha existência a brincar com a Nelinha, a Teresa e o Luís, ora na casa duns ora na dos outros, ora na minha, e a comer os deliciosos rissóis, croquetes e empadas feitos pela dona Josefina, a avó dos últimos dois. Reencontramo-nos anos mais tarde, adultos e já com filhos e, nesses momentos, concluímos que os laços não se haviam quebrado. Há muito tempo que nada sei deles.

Quando me casei, em 1987, fui viver para um prédio, em Faro, ainda em construção. Foi a minha “primeira casa”, comprada por mim depois do meu primeiro ano de trabalho pós faculdade. Curiosamente, quase todos os habitantes do edifício de sete andares (três apartamentos por piso), eram casais jovens, recém casados ou com filhos pequenos. Vivi ali durante 17 anos, grande parte dos quais com a mesma vizinhança. E que vizinhança! Éramos todos amigos, não havia quezílias nas reuniões de condomínio, administrávamos o prédio (num sistema de rotatividade que nunca causou problemas), vivíamos como Deus com os anjos, acompanhando o crescimento da miudagem. Um grupo pacífico e cordial, apenas desestabilizado pela insípida mulher de um senhor doutor advogado que para dar um pouco de pimenta à sua fria existência de doméstica, escolheu  um alvo, eu, a vizinha de cima, e apontou baterias. Durante muitos anos, a minha vida foi um suplício. Por dá cá aquela palha batia forte e feio com a vassoura no teto porque alegadamente o marido “que é advogado, precisa muito de descansar”. Uma noite, o padrinho do meu filho foi-me visitar porque o miúdo, então com dois anitos, estava com varicela. Enquanto conversávamos na sala, o miúdo bramia uma espada de brincar contra o padrinho dizendo, orgulhosos,”Pum pum, eu sou o Zorro” e ria-se que nem um perdido e nós riamos com ele, obviamente. A determinada altura, deviam ser por aí umas dez e meia, batem à porta. Qual não é o meu espanto quando vejo a esposa do advogado , de camisa de dormir vestida e cabelos desgrenhados a protestar contra a “barulheira horrorosa que estão a fazer e que impedem o meu marido que é advogado com escritório montado, e que se levanta cedo e trabalha imenso, um trabalho muito importante e exigente, de descansar”. Perante o meu olhar incrédulo primeiro e já profundamente irritado depois, não propriamente com a postura da senhora, mas mais com a história do marido doutor advogado, vociferei uma frase da qual me arrependi bastante, mas foi remédio imediato: “olhe, só tenho a dizer-lhe uma coisa. O seu marido advogado pode ser muto bom advogado, mas se fosse tão bom marido, a estas horas estaria a fornicar com a senhora”. Passamos o resto da nossa obrigatória convivência no prédio sem nos falarmos, o que a mim me causou muita mossa emocional.

Quando, anos mais tarde, já na Póvoa de Varzim, cidade onde atualmente resido, passei , a nível profissional, pela área da angariação e venda de casas, deparei-me com muitas situações de pessoas que queriam vender os seus imóveis porque já não aguentavam a vizinhança. Caso mais flagrante foi a de um casal jovem que tinha comprado um apartamento novo e, passados dois anos, decidiu coloca-lo à venda e desfazer o problema da vizinha do lado, uma senhora  viúva e sozinha, que se dedicava, segundo me contaram,  a vigiar e controlar os passos do casal. E exercia esta sua atividade tão indiscretamente, que não resistia a abrir a porta e interpelar os dois jovens sempre que entravam e saiam de casa.

“As desculpas eram esfarrapadas. Ora fingia que ia regar os dois vasos que tinha à entrada, ora que colocava o saco do lixo à porta, ora ainda que estava a limpa-la”, explicaram-me no dia da angariação, sublinhando que “o forte dela era bater à porta sempre que tínhamos visitas em casa”. “Alegadamente para pedir para não fazermos ruído, ia entrando literalmente para bisbilhotar quem estava em casa”, disseram-me, acrescentando que um dia “o desplante foi tanto que a convidámos a entrar. Ficamos em silencio, ela também, os minutos passaram, o ambiente foi altamente constrangedor!. “Este voyarismo está a dar cabo de nós. Queremos ir embora rapidamente”, desabafaram. Não sei se o apartamento terá sido vendido posteriormente à minha saída da imobiliária, mas seguramente quem o comprou deve estar a passar (ou já passou) pelos mesmos dissabores.

E depois há aqueles vizinhos que nos valem nas horas de aflição e que são elementos preponderantes em situações de crise, como a minha vizinha do lado que me oferecia um maravilhoso (o melhor que já comi) bolo de ananás sempre que ia passar o fim de semana a casa, durante o mês e meio que estive internada no centro de reabilitação do Norte, que me enchia a alma e a boca, ou a minha vizinha de cima que me rega as plantinhas quando eu não estou e me leva um doce de abóbora de comer e chorar por mais. Esses são os vizinhos que nos mimam e confortam a nossa existência…

 

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