História de uma solteirona (com final feliz)

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No dia em que se celebra o amor, deixo-vos aqui a história da minha bisavó paterna, que só arranjou namorado aos 33 anos, quando já estava encalhada e com o destino solitário traçado. A menina Gertrudes do Carmo Martinheira, que toda a gente chamava “Belita”, sabe-se lá porquê,  morreu aos 96 anos depois de uma vida cheia. Teve duas filhas e um filho (o meu avô) e quatro netos. Mas esteve quase para não ter descendência, remetendo-se ao papel de tia que, naquela época, numa aldeia do concelho de Faro, era um estatuto muito desconsiderado.

A minha bisavó tinha uma figura pouco usual para a época, para além de estar muito acima dos 1, 55 , 1,60 metros de altura média das raparigas da aldeia (e arredores). Era uma mulheraça, imponente do alto dos seus 1,80 metros, forte , morena, de traços duros a condizer com a sua personalidade. E calçava o número 42 , pelo que sempre usou sapatos de homem. Ora, naquela altura, em ambientes rurais, os namoros aconteciam nos bailes. Era aí que rapazes e raparigas se conheciam e iniciavam a sua relação. As moças estreavam-se nas lides das danças (e não só) a partir dos 15, 16 anos. A menina Belita levou anos e anos a aprimorar-se para as reuniões dançantes, não que tivesse especial gosto pelos ritmos da época, mas com o objetivo comum a todos os jovens: arranjar namorado e casar.

Acontece que  a minha bisavó, que era uma mulher muito decidida, viu a sua vida andar para trás porque baile após baile, durante todo o seu tempo de juventude, quando já tinha passado há muito o seu “prazo de validade”, não encontrava par…à sua altura. Tal como as mulheres, também os homens algarvios eram no início do século baixotes e um pouco para o machista, sendo relação proibida aquela que unisse uma mulher bem alta a um homem baixo. “Não ficava bem”, contou-me nos momentos lúcidos que tinha, que uma arteriosclerose avançada tomou conta dela nos seus últimos anos de vida.

A “Ti Belita” estava, por isso, remetida à sua condição inferior de tia e quase resignada à mesma quando um belo dia, surge em cena um homenzarrão de 1,90 metros, mais dez centímetros que ela. Ao que parece, o mesmo rendeu-se aos encantos da menina Gertrudes e não se importou que a mesma calçasse o 42 biqueira larga, que não é um pé grande que faz a diferença. A solteirona passou a ser uma respeitável senhora casada e foi por causa deste casamento que estou aqui, fazendo jus à linhagem da família. Não sou tão alta como a minha bisavó (não ultrapassei os 1,75 metros) e calço um número menos que ela, mas os seus descendentes homens ultrapassam todos os 1,85 metros.

A Ti Belita foi uma figura incontornável da vida da freguesia da Conceição de Faro. Não só pelo seu mau feitio (o marido, que não conheci, era um homem pacato, sereno e de bom trato), como pela sua bravura. Desafiava a escuridão da noite, a chuva, o vento e o frio, tinha uma força física rara e não tinha medo de nada. Ia a pé quase todos os dias da aldeia até Faro, doze/13 quilómetros ida e volta, fazer compras, saber das novidades, dar “devaia” às muitas pessoas que ali conhecia e sobretudo…ir a julgamentos. Pois é, a Ti Belita devia ter sido advogada ou juíza, porque a praia dela eram os tribunais. Assistia, por isso, a todos os julgamentos, mesmo que estes se prolongassem durante muito tempo, e no regresso ia à aldeia relatar o que por lá se passava: os crimes cometidos, os réus, as testemunhas, as sentenças. Era o elo de ligação entre a cidade e a aldeia, o único canal de informação local. Quem a conheceu sabe que era a repórter de serviço, sempre muito inclinada para a informação de caráter criminal. E não terá pensado duas vezes quando, aos 86 anos, se meteu num avião e rumou até Moçambique, onde estava a maioria dos seus filhos, netos e bisnetos. Foi recebida no aeroporto de Lourenço Marques com todas as mordomias, pela idade e pela aventura, e tornou-se ela própria notícia com direito a foto no Diário de Notícias de Lourenço Marques (ela, o meu avô, o meu pai  e eu). A minha ligação ao jornalismo começou nesse preciso momento (esta história é dedicada ao clã Martinheira).

 

 

 

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