História de homens que batem nas mulheres

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Conheci, em 1981, uma mulher que ao fim de 25 anos de casamento e já com dois filhos adultos, saiu da casa onde vivia com a família, com a roupa que levava vestida e nada mais, depois de ter levado uma tareia do marido que a levou às urgências do hospital. Nesse dia, os filhos não estavam em casa e ele “implicou” com ela, sabe-se lá porquê. “Sem motivo”. contou-me. “Bateu-me por bater, porque lhe dava gozo”. A mulher, que na altura teria os seus 46 anos, foi viver para casa da mãe. Nunca recuperou a sua casa nem os filhos, que continuaram a viver com o pai. Contou-me que toda a vida fora assim. “Chegava a casa bêbado, tinha amantes, andou nos barcos de cruzeiro durante vários anos, ganhou bom dinheiro, mas não mandava um cêntimo para casa, passámos fome. Sempre que vinha a casa, batia-me”.  A senhora nunca refez a sua vida amorosa. Vive sozinha há muitos anos.

Vim a saber que quer o pai dela quer o sogro batiam nas respetivas mulheres. A primeira viveu durante muitos anos, a segunda morreu cedo, do coração. Só conheci a primeira. Foi das pessoas mais bondosas, generosas , doces e sofridas que passou pela minha vida. A segunda não cheguei a conhecer, mas todos os que privaram com ela reconhecem-lhe igualmente uma bondade extrema. Trabalharam arduamente em casa e fora dela, criaram os filhos, trataram da vida dos seus agressores. Com total dedicação. Curiosamente, o filho mais velho da minha conhecida fez com a sua mulher exatamente o mesmo que vira durante uma vida o pai fazer à mãe. E que lhe deixou marcas profundas que ditaram o seu caráter e os seus comportamentos. Ao fim de 20 anos de casamento e sete de namoro, também com dois filhos, ela saiu de casa nas mesmas circunstâncias que a sogra. Uma brutal agressão, a segunda no espaço de um mês, na presença dos filhos, levou-a ao hospital e quase a um abismo profundo. Foi o início de um longo e penoso percurso de três anos que terminou nas barras do tribunal e com uma sentença de prisão para ele.

Há dias, um colega meu jornalista, escreveu numa rede social, a propósito do caso Bárbara Guimarães/Manuel Maria Carilho, algo certíssimo do meu ponto de vista: “Meu caro Manuel Maria, nem sempre quem bebe é bêbado. Nem sempre quem é bêbado é má pessoa. Nem sempre quem é sóbrio não é vilão. Mas sempre que um homem bate numa mulher, é um enorme filho da puta”. Em relação a esta questão, tenho ouvido muitas versões da boca de homens e mulheres. Aliás, escrevi ao longo da minha carreira, variadas histórias sobre o assunto e de todas tirei as mesmas conclusões: a covardia, o sentimento de inferioridade, a frustração, a falta de caráter, ciúmes doentios, raiva contida e, em alguns casos, um fenómeno de imitação, estão sempre na origem de uma agressão a uma mulher por parte do seu marido, companheiro ou namorado. É o efeito “saco de boxe”, sendo neste caso o saco, a mulher, o elo mais fraco. Há quem diga que o dinheiro, ou melhor a falta dele, está presente na maior parte dos casos. Afinal, “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. E, por isso, o homem dá um valente murro na sua mulher e deixa-lhe um olho negro. por não haver comida em casa. E também há os que alegam “se ele lhe bateu é porque ela lhe punha os cornos”. Esta é curiosamente a teoria preferida por eles e elas. Há sempre uma terceira pessoa que desestabiliza o casamento e justifica um traumatismo cranioencefálico grave.

E  se  as  mulheres  aguentam,  por total dependência económica, por não terem qualquer apoio familiar ou outro, pela casa, pelos filhos ou simplesmente porque ficam paralisadas pelo medo e não têm coragem e audácia para quebrar o relacionamento, enfrentar a ira ainda maior dos seus agressores e refazerem as suas vidas (sim, porque ainda subsiste a ideia de que “se não és minha não és de ninguém”), a vox populi justifica, alto e bom som,  “Quanto mais me bates, mais eu gosto de ti”…

Conheci, há poucos anos atrás, uma rapariga, bonita, de grandes olhos azuis, que vivia na altura, numa casa de acolhimento, onde se refugiara depois de dez anos de brutais agressões e violações por parte do marido, de quem tem dois filhos. Vivia numa aldeola do interior do norte do país, onde toda a gente se conhece, sabe e comenta a vida dos outros. A jovem era do Alentejo e conheceu o marido na apanha do tomate. Foram viver para o norte, onde se casaram. Ela arranjou trabalho num supermercado, ele numa fábrica têxtil. Tiveram dois filhos. Tinham uma vida aparentemente normal, até ao dia em que a vizinhança deu de caras com a jovem, coberta de sangue a correr pela rua, pedindo ajuda. Conseguira-se escapar às mãos do marido que a violara brutalmente e depois a espancara. Os miúdos ficaram em casa. A conselho dos vizinhos, a vítima não foi ao hospital. Horas mais tarde, voltou para casa e para o agressor. A cena repetiu-se por muitos anos, com conhecimento geral. Ninguém lhe deu uma mão, ninguém a amparou até ao dia em que uma colega de trabalho decidiu denunciar o caso à polícia. Posteriormente, os meninos foram entregues à guarda dos avós maternos, no Alentejo. Quanto à aldeia, contou-me ela, dizia em uníssono !Entre marido e mulher não metas a colher”…

 

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