História de encontros imediatos do terceiro grau

 

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É incrível como há professores que têm tanta influência sobre nós e marcam tanto a nossa vida e o nosso carácter, por vezes mais do que os próprios pais! Pela positiva e pela negativa, claro está. Sempre fui muito medricas. Sempre tive medo do escuro, dos ruídos da noite, do ranger do soalho, das almas do outro mundo, dos espíritos. Nunca consegui dormir com as portas dos roupeiros abertas e destapada, mesmo quando faz muito calor. Tudo começou quando tinha seis, sete, oito anos, na minha cidade natal, Lourenço Marques, Moçambique.

Frequentava o Colégio Fernando Pessoa, quando um determinado dia, no meu 1º ano da escola primária, o diretor comunicou-nos que, na semana seguinte íamos ter uma nova professora. A nossa docente, que não me lembro o nome, tinha tido um problema de saúde grave. Ficámos muito tristes e expectantes em relação à nova professora. Esta era uma “mulher velha” aos meus olhos de criança, magra, de cabelos pretos agarrados por um rabo de cavalo. Não era bonita. Senti medo dela assim que a vi. Nas semanas, meses seguintes, não sei precisar, o meu receio deixou de ser infundado quando, a meio da aula matinal, a Professora Júlia fechou os cortinados vermelhos das janelas da sala, deixando-nos numa penumbra perturbadora. E, com ar altivo, informou-nos: “deixem-se ficar quietos e calados e não contem nada disto lá em casa, aos vossos pais. Ouviram???”. O grupo respondeu em uníssono “Sim, senhora professora”, que nos finais dos anos sessenta, princípios dos anos setenta, havia muito respeitinho nas aulas.

Lembro-me que nas salas de aula havia por trás da secretária da professora uma fotografia de António Salazar, perante a qual tínhamos de cantar diariamente o Hino Nacional, e um cruxifixo para o qual tínhamos de olhar fixamente enquanto nos benzíamos, rezávamos o Padre Nosso e voltávamos a benzer, e por cima da mesa uma régua gigantesca de madeira, cuja parte superior era em formato redondo. Este instrumento de tortura era usado quando os alunos se portavam mal ou não sabiam enunciar as preposições e os pronomes pessoais, possessivos e demonstrativos. Era também empunhada ameaçadoramente quando os meninos e meninas iam ao quadro e não sabiam fazer as contas de aritmética. E também era a arma que empunhava a Professora Júlia quando se preparava para a sua sessão. Mais tarde, vim a saber pela minha mãe que a docente era “médium” e “falava com os mortos”, mas só mais tarde, no epílogo dos acontecimentos.

Afinal, o que fazia ela? Bom, nada mais nada menos do que entrar em transe e falar com vozes diferentes, supostamente de outras pessoas que “já não estão cá” e fazer movimentar objetos pela sala, como a bíblia, o dossiê e o candeeiro que estavam em cima da sua secretária, os quais faziam autênticas razias à minha cabeça e à dos meus colegas aterrorizados. A cena final era verdadeiramente impressionante: a professora Júlia fazia balançar com uma força desmedida o candeeiro de teto perante o grito alucinante da miudagem. Finda a sessão, cujo propósito ainda hoje desconheço, a docente voltava a abrir os cortinados e recomendava mais uma vez aos alunos paralisados pelo medo “Chiu, boca calada!”.

Tudo isto aconteceu no meu primeiro e segundo anos de escola e só no final deste último o “segredo” foi revelado por um miúdo que passou a fazer xixi na cama todas as noites (pudera!) e chibou-se à pediatra. Os pais, no dia seguinte, denunciaram o caso ao diretor, que marcou uma reunião com carácter de urgência com os restantes encarregados de educação, sobre “assunto de extrema gravidade e delicadeza”, segundo me contou, anos mais tarde, a minha mãe. Lembro-me que, no dia seguinte, após o encontro, a minha mãe perguntou-me “Ana Paula, vou fazer-te uma pergunta à qual tens de me responder com a verdade: tens visto na sala de aula a professora Júlia falar com os espíritos e mexer o candeeiro com os olhos?”. Desatei num choro convulsivo, como se tivesse tido mil descargas elétricas de alívio. Confirmei tudo. No dia seguinte, os meus pais levaram-me à escola e à entrada vejo os meus colegas com os respetivos progenitores em acalorada conversa com o diretor, um homem de bigode negro e farto, com grandes óculos pretos nos olhos. A decisão fora tomada. A Professora Júlia tinha sido expulsa do colégio. Nessa noite dormi na cama dos meus pais.

Sinto que estes episódios marcaram profundamente a minha personalidade e justificaram o facto de durante muitos e muitos anos, nomeadamente em Lourenço Marques, numa casa onde não havia ar condicionado e faziam 42, 43 graus à noite, eu dormir sempre com a cara voltada para a almofada, sem me mexer e tapada até à medula com o lençol. Durante a minha adolescência, em Faro, vivi numa casa de dois andares, sendo que o meu quarto situava-se no primeiro, longe do quarto dos meus pais. Foi um horror. Tinha medo dos espíritos que entravam pela habitação adentro (achava eu) e me queriam levar para outros mundos. Uma noite, tinha eu os meus 13, 14 anos, acordei aos gritos aterrorizada quando senti uma coisa cair em cima de mim. Fiquei paralisada com o medo e pensei “eles chegaram! É o meu fim!”. Consegui reagir, acendi o candeeiro de mesa de cabeceira e de repente, em cima das minhas pernas cobertas (Graças a Deus!) pelo lençol, estava uma….peçonhenta osga, branca com olhinhos brilhantes e ar alienígeno. Gritei tanto, tanto mas tanto, que veio o meu pai, a  minha mãe e o meu irmão pequenito, sempre sedento de aventuras, munidos com vassouras para enfrentar a alma do outro mundo que ainda sacudiu mais a minha reduzida instabilidade emocional noturna. (Esta história é dedicada às duas professoras Silvina que marcaram, pela positiva, a minha vida: a primeira, a minha professora da quarta classe que me incutiu o gosto pela escrita ao obrigar-me a fazer uma redação todos os dias; a segunda, a minha queridíssima professora Silvina, de Português, do 9º ano, no Liceu de Faro, que me fez apaixonar por esta disciplina e me levou à descoberta do meu escritor favorito, Eça de Queirós. Tanto uma como outra, já não estão cá).

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