História de pequenas/grandes conquistas

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Quando, em princípios de Maio, a minha vida resumia-se a ir da cama para o cadeirão ao lado e deste para a cama, no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, achei que já tinha projeção de voz suficiente e força nos pulmões para falar pelo telemóvel com o meu pai, que vive em Faro, e de quem eu tinha mais saudades naquele momento difícil da minha vida.

Pedi, por isso, ao meu companheiro que ia visitar-me todos os dias à hora do almoço (para me dar a comida à boca) e ao fim da tarde, para me dar o jantar e os mimos que precisava, o meu telemóvel, que andava com ele. O esforço de segura-lo foi gigantesco, porque as minhas mãos tremiam devido à fraqueza muscular, e quando olhei para o equipamento…não sabia o que fazer. Não me lembrava como se ligava, como encontrar os contactos, as funções do sinalinho verde e vermelho…nada.  No dia seguinte, voltei a fazer o mesmo e desta vez liguei para o meu irmão. Ao terceiro dia, falei com as minhas tias. Conversas curtas e em tom de voz muito baixo, mas percetíveis. Reencontrei-me com as novas tecnologias e conectei-me com o mundo. Esta foi a minha primeira grande conquista do pós-26 de Março.

E quando, nessa semana, a enfermeira de reabilitação, que trabalhava essencialmente a minha perna e pés esquerdos, cujo nervo peronial tinha sido afetado por todo o meu quadro clínico anterior, na cama, me disse “vamos tentar andar”, senti uma mistura de medo e entusiasmo. A partir desse momento, foi uma luta diária para que, numa primeira instância, conseguisse ajudar enfermeiros e auxiliares a levantarem-me, numa segunda, manter o equilíbrio em pé, e por último, dar alguns passos na curtíssima viagem entre o cadeirão e os pés da cama. O meu pé, esse, estava colocado numa espécie de tala, um “bico de pato”, como lhe chamavam, enrolado até meio da perna com tanta ligadura que parecia um faraó.  A primeira vez que andei, agarrada à enfermeira, chorei e emocionei as minhas companheiras de quarto, que apreciavam a cena. Esta foi a minha segunda grande conquista!

À ordem “durante o dia, faça push up na cadeira Ana Paula! Tem de sair daí!” da responsável pelos primórdios da minha reabilitação, eu respondia com dezenas de tentativas por dia. Tinha plena consciência que levantar-me da cadeira sem ajuda era importantíssimo para ir para uma cadeira de rodas e sair do hospital…Longe estava eu de imaginar que estava tão fraca , magra e sem força que, só quando fui transferida para o Centro de Reabilitação do Norte, em Gaia, é que iria conseguir a proeza. Entre a fisioterapia, terapia ocupacional, terapia da fala, sessões com a psicóloga para melhorar as funções cognitivas, também muito afetadas, lá estava eu, no meu quarto com vistas para o mar, a tentar uma, duas, três vezes…até ao dia que consegui não só levantar o rabo da cadeira como manter-me em pé. Nova crise emocional! A minha companheira de quarto, batia palmas “Boa Ana Paula, boa, não tarda muito está a andar!”, dizia-me entusiasmada com esta minha grande conquista, que ali todos vivem e vibram com os progressos uns dos outros.

A partir daí foi um fartote de pequenas outras conquistas, como passar a tomar banho sozinha, lavar os dentes e secar o cabelo com o secador, vestir-me sem ajuda (a meia do pé esquerdo foi mais resistente), colocar as lentes nos olhos, maquilhar-me, conduzir a cadeira de rodas pelos corredores e salas do centro, descer no elevador e ir ao bar tomar um cafezinho, deixar de  comer comida mole, água com espessante e papas Nestum com mel (BAH! sei lá, tantas coisas pequeninas mas de extrema importância que não damos conta em situação normal! Nunca mais me vou esquecer do primeiro fim de semana que os médicos me deixaram ir a casa e da sensação de liberdade que tive ao sair do centro. O sol  a bater-me na cara, o cheiro a mar (a praia de Valadares está ali ao lado), a luz…fez-me sentir que ainda tinha muita vida pela frente! Nunca uma viagem de cadeira de rodas até ao carro, foi mais emocionante! Ri. chorei, quase fiz chorar o meu companheiro que me levava ao paraíso…Durante o percurso do centro até minha casa, na Póvoa, gastei uma caixa de Kleenex…Vitória, pensei eu!

Claro está  que a maior batalha foi ganha no dia em que o meu fisioterapeuta, depois de um treino intensivo a nível de abdominais, glúteos e pernas para readquirir a força na coluna que havia perdido totalmente, ditou-me a sentença de vida: “Paulinha, agora levante-se da cadeira e caminhe agarrada às barras!”. Quando me apercebi que estava a andar e que conseguia ir até ao fim do percurso e voltar, dei o grito de Ipiranga que soou no ginásio para todos ouvirem “ESTOU A ANDAR!!!”. Com o maior sorriso que já ostentei e tremendo de alegria e felicidade, dei dois repenicados beijos ao terapeuta, que até é um rapaz jeitoso e divertido, clamando pela grande vitória do dia e da minha vida! (Esta história é dedicada a todos os profissionais de saúde que, com o seu trabalho, dedicação e motivação, me fizeram acreditar que, um dia, eu iria voltar a viver).

 

 

 

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