A minha história com Mário Soares

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Estava eu gravidérrima do meu filho mais velho, já lá vão 27 anos, e no início da minha carreira no Diário de Notícias, na delegação de Faro, quando uma bela manhã de um Verão escaldante, que me inchava os pés e fazia-me sentir a pessoa mais obesa ao de cima da terra, recebo um telefonema do meu editor de Política (já não me lembro quem era), que quase ia provocando o nascimento da criança que teimava em não vir ao mundo. “O Mário Soares vai falar aos jornalistas na casa da Praia do Vau dentro de uma hora”, disse-me.

Qualquer declaração de Mário Soares, e ainda por cima estando de férias com a família na sua casa do Algarve, era sempre notícia. E da boa. E lá fui eu, rogando pragas ao destino, que a minha majestosa barriga de nove meses, encostada ao volante, provocava uma atividade anormal e incomodativa do meu bebé. Na altura, ainda não havia a Via do Infante pelo que, para ir até ao Vau, que fica próximo de Portimão, tinha-se de percorrer obrigatoriamente a congestionadíssima e problemática Estrada Nacional 125, que atravessa o Algarve, apinhada em finais de Junho, de turistas nacionais e estrangeiros.

Uma hora não me chegou para lá chegar, pelo que quando avistei finalmente a célebre casa do Vau, a minha ansiedade redobrou, presumindo que o político já estava a falar com os meus colegas jornalistas. Estacionei o carro, saí a correr (eu e a minha barrigona), apresentei a minha identificação aos seguranças e entrei afogueada por ali adentro. A casa de férias da família Soares tem um grande hall de entrada com um soalho, na altura, de madeira reluzente. Assim que entrei, vi ao fundo aquilo que não queria ver: os meus colegas de imprensa , de rádio e da RTP, o único canal nacional então existente, de gravadores, microfones e câmara em punho (que na época não existiam telemóveis). “Pensei, estou tramada. Já falhei o início da conversa!”. E vai daí, inicio uma corrida desenfreada pelo soalho reluzente incompatível com as minhas sabrinas estreadas nesse mesmo dia e só me lembro de fazer um aparatoso “sku” e ir parar aos pés de Mário Soares, estatelada no meio do chão. Antes, na minha louca corrida, deixei pelo caminho o meu gravador, que se desfez em cacos, espalhados juntamente com as pilhas, pelo hall da casa.

De repente, ouço a voz inconfundível de Soares: “Parem tudo, vamos acudir esta menina que parece estar em apuros”. Com o seu ar bonacheirão, ajudou a levantar-me, perguntou-me se estava tudo bem, mandou alguém levar-me um copo de água, fez questão em andar literalmente de rabo para o ar a apanhar os pedaços do equipamento e quando se certificou que a mãe e supostamente a criança estavam bem de saúde deu a ordem final: “vamos começar tudo de novo”. Quanto a mim, se pudesse desatar a correr, tinha fugido de imediato para local incógnito. E, claro está, tive mais tarde que recorrer a um colega para me deixar transcrever a gravação, porque as minhas mãos trémulas do nervosismo da ocasião, impossibilitavam-me de escrever. O meu filhote nasceu quatro dias depois. (Esta história é dedicada a todas as minhas colegas jornalistas que também andaram e andam nestas e noutras andanças piores, com as suas gravidezes).

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