Outras histórias de São Valentim

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Conheci, no Verão passado, uma rapariga que deu um salto (quase mortal) do 9º andar do prédio onde vivia, depois do seu noivo, com o qual tinha casamento marcado para dali a uns dias, lhe ter comunicado que não pretendia casar-se mais. Foi um namoro de vários anos e a maturidade dos noivos (ela sei que tinha, à data, 29, ele um ano mais)  não terá sido posta em causa. Estavam de casamento marcado, convites distribuídos, boda adjudicada, vestido comprado, casa montada… Ao que parece não houve discussões, traições, influências de terceiros. Ela não aguentou o embate emocional e atirou-se para o vazio.

Conhecia-a em fase de reabilitação. Salvou-se, por milagre, mas teve de reaprender a comer, a falar, a escrever, a caminhar, tal como eu. Partilhámos durante quase mês e meio o mesmo ginásio e a mesma sala de terapia ocupacional onde readquirimos a força que perdêramos nos braços, nos punhos, nas mãos e nos dedos. Nunca lhe vi, contudo, um olhar feliz, muito embora tivesse dali saído a andar. O olhar apagado, vazio, apático e a ausência de um único sorriso enquanto ali esteve, demonstravam a total falta de objetivos de vida. Perguntei-lhe, quando, nos últimos dias da nossa estadia, ela me contou a sua história, se o noivo lhe havia explicado os motivos da decisão. Respondeu-me: Não, apenas informou-me que não queria mais casar”. “Acabou-se tudo, vou dar o fora”. Assim, seca e friamente. Senti, nesse momento, que a minha amiga tinha sobrevivido a uma queda de nove andares, mas estava, de facto, morta para a vida. No dia da alta, não se despediu dos colegas.

No mesmo centro de reabilitação palco das minhas conquistas, conheci uma senhora de oitentas e picos que fora ali internada pela terceira vez. Um problema grave num joelho obrigou-a  a  reabilitação intensiva. Nunca vi pessoa mais feliz como ela, no dia em que entrou, pela primeira vez, no refeitório coletivo do piso onde eu estava. Um efusivo ” Bom dia, então como está tudo por aqui?” saudou os presentes que nunca a tinham visto mais gorda, eu inclusive. Sentou-se ao meu lado e desde logo manifestou a intensa felicidade de ali poder ficar “uns tempos”. “Mas gosta assim tanto disto?”, perguntei-lhe eu. “Gosto não, adoro. Por mim, vivia aqui”, garantiu-me.

Depressa me apercebi que era “preferível estar aqui, do que em casa, sozinha com os meus pesadelos”. A velha senhora, uma mulher alta que outrora devia ter sido bonita, tem duas filhas e alguns netos “que é o mesmo do que não ter nada”, dizia-me. Um dia, estávamos na sala de animação sócio-cultural, onde se jogavam cartas e dominó, liam livros e revistas e pintava-se livros de colorir, com lápis de cor e de cera, confidenciou-me que era viúva “mas ainda bem”. Perante o meu olhar espantado, explicou-me que o marido sempre teve  amantes com casa montada, mas “jantava todos os dias em casa”. Ela lavava-lhe e passava-lhe a roupa, tratava do lar e criava as filhas, ele “chegava a casa, tomava banho, empertigava-se todo, jantava, humilhava-me, dizia que eu não valia nada, contava as porcarias que fazia com as outras e ia…”  Às vezes, batia-lhe “forte e feio”. “Nunca tive um homem, um marido, que saísse comigo, de braço dado, a passear pela rua”, contou-me, com mágoa contida, frisando que “nunca conheci o amor”. Quando o marido morreu, passou a ir todos os dias ao programa Praça da Alegria, da RTP 1, como “figurante”. “Ali é que eu sou feliz”, disse-me, adiantando , contudo, que o melhor mesmo é “estar aqui”. E porquê ? “Porque sou acarinhada e gosto muito de falar com meninas como a Paulinha”. A ti Virgínia ficou-me no coração.. No dia em que teve alta, despediu-se contente e faladora dos colegas do segundo piso. “Vou, mas volto. Saúdinha para todos, que eu não tarda muito estou por cá outra vez!”.

 

 

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2 thoughts on “Outras histórias de São Valentim

  1. Olá Paulinha. Gosto da ideia. Escrever é tonificante e ajuda-nos ao convívio e estimula o imaginário- Todos temos histórias de vida e é uma boa opção reproduzir na escrita a memória de algumas. Boa Paulina, vou ficar atento ao teu blog. HR

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