Histórias de príncipes encantados

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Quando tinha os meus 12, 13, 14 anos e devorava os romances da minha mãe, muitos deles da escritora norte-americana Pearl Buck, sonhava, tal como todas as raparigas da minha geração, com príncipes encantados. Numa época em que a nível de entretenimento só havia a literatura, o cinema, a rádio, os dois canais da RTP e o gira-discos, sonhava-se muito. Demasiado. Até porque havia muito tempo. Por isso, eu e a minha prima Isabelinha, que tinha dois anos mais do que eu e era ainda mais ingénua, inocente e sonhadora, descrevíamos ao pormenor o príncipe/rapaz que, um dia, nos iria resgatar da aldeola onde vivíamos, perto de Faro, e nos levaria a conhecer mundos e a viver aventuras mil.

Um dia, alguém nos disse que se observássemos durante dez noites seguidas o céu e contássemos dez estrelas, na décima segunda noite, sonharíamos com os nossos príncipes. Ui, que emoção, que saltos e gritinhos demos quando, na primeira noite, olhámos o céu estrelado (era Verão) e de mãos fechadas, num pacto fraterno, contámos as primeiras estrelas! A cena repetiu-se por mais nove noites e a nossa convicção era tão grande que à décima primeira noite, tivemos ambas sonhos maravilhosos.

No dia seguinte, assim que acordámos (a Isabelinha vivia na minha casa), olhámos curiosas e expectantes uma para a outra. “Então, conta-me. Com quem sonhaste?”, perguntei eu, impaciente”. As expectativas da minha prima devem ter ficado defraudadas porque não me recordo da sua resposta. Já eu, ao relatar-lhe o meu sonho, lembro-me perfeitamente que estava vibrante e empolgada. De mãos dadas à Isabelinha, olhando-lhe bem nos olhos, descrevi com exatidão a minha atividade cerebral noturna. Sonhara com um rapaz muito alto, de cabelos castanho claro, longos e lisos sacudidos pelo vento, em cima de uma moto e de camisa branca vestida. Retenho até hoje essa imagem e sempre que estamos juntas recordamos com nostalgia e muita risota essa “parvoíce” de miúdas.

O meu príncipe encantado ficou por ali, porque alguns anos mais tarde o meu primeiro namorado, que viria a tornar-se meu marido e pai dos meus filhos, não correspondeu em nada à imagem do sonho. Não é assim tão alto, era, à época, muito moreno, de cabelos pretos, nunca andou nem teve uma moto e nunca o vi com uma camisa branca. Quis o destino que 20 anos mais tarde nos divorciássemos e pouco tempo depois conhecesse o meu companheiro. A primeira imagem que tenho dele é a de um homem muito alto, de pele e cabelos castanho claro, longos e lisos, sacudidos pelo vento que, nesse momento, lhe batia na cara. Não estava com uma camisa branca, mas é o tipo de camisas que mais gosta e usa. Só lhe faltava a moto. Soube, nesse dia, que o meu sonho de adolescência se tornara real e que o meu príncipe encantado estava ali para me levar a viver os anos mais intensos, apaixonados e aventureiros da minha vida. Não estava montado num cavalo alado e branco, mas constatei mais tarde, que tinha um carro desta cor. E estamos juntos há nove anos. Moral da história: a vida é um romance e nós podemos ser os principais protagonistas. E em alusão à nacionalidade espanhola do meu companheiro/príncipe e a este fenómeno (que só pode ser paranormal), resta-me apenas dizer que “yo no creo en las brujas, pero que las hay…hay!… (esta história é dedicada à minha prima Isabelinha, a melhor pessoa que conheci até hoje e que ainda não encontrou o seu príncipe, mas eu sei que vai encontrar)

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2 thoughts on “Histórias de príncipes encantados

  1. Nada como sonhar! Tarde ou cedo os sonhos concretizam-se, mas para tal é necessário que acreditemos.
    ( Quanto às bruxas não acredito nelas, mas que as há, há!😋)

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