Outras histórias de Indiana Jones

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O meu avô Chico é o meu herói. Morreu agarrado a uma cama depois de uma série de operações mal conseguidas à cabeça do fémur, que começou a desgastar-se quando, ainda jovem, tinha como profissão abrir noras. Nos últimos anos de vida, deixou de andar.  As escavações profundas que era obrigado a fazer com água pela cintura, que, nessa altura, numa aldeia dos arredores de Faro, não havia maquinaria para o efeito, ditaram-lhe a sentença. Em meados dos anos 40, tentou a sorte em Moçambique, para onde já tinha ido um cunhado. Juntos fizeram fortuna, como agricultores, tendo chamado anos mais tarde as respetivas mulheres e filhos.

Desde que nasci, em 1963, ia três vezes por ano à casa dos meus avós, situada numa propriedade, a “machamba”, a mais de 100 quilómetros da capital moçambicana, Lourenço Marques, a minha cidade. Era um mundo diferente, cheio de aventura (para se chegar a Taninga,  aldeia onde os meus avós viviam, tinha de se percorrer um longo caminho de terra batida, pelo meio do mato, o qual, quando chovia, deixava as viaturas atoladas), cores, sons e cheiros novos. A casa, de alvenaria, ficava situada no cimo de uma colina. A toda a volta, havia um pátio em cimento. A zona circundante era de areia. Por trás, estavam as palhotas onde moravam as dezenas de trabalhadores do meu avô, que recusaram viver em casas de alvenaria tal como o “patrão” havia sugerido. Enquanto subíamos, de carro, o caminho que ligava à casa, éramos sempre rececionados pela prol imensa de crianças que ali viviam, manifestando, assim, a sua alegria pela presença do “filho do patrão” e da “menina”.

A partir desse preciso momento, começavam, assim, os meus dias gloriosos. Entre tantas vivências, experiências e aventuras, a que mais me marcou, pela imponência do momento, o suspense e a ação,  foi a morte da cobra que elevou o meu avô Chico, aos meus olhos de criança, ao estatuto de GRANDE HERÓI. Numa determinada manhã, acordei a ouvir gritos dos trabalhadores negros da machamba. A palavra “inhoca” era só por si suficiente para provocar um susto coletivo e obrigar o meu avô a sacar da espingarda que tinha sempre atrás da porta da cozinha, com a qual caçava rolas, Desta feita, a caçada foi de maior envergadura. As marcas deixadas pelo que se supunha ser uma enorme cobra, no areal circundante à casa, não deixava margem para dúvidas: era bicho grande, o suficiente para provocar uma carnificina nos coelhos, galos e galinhas que a minha avó Lina criava com total dedicação.

A caçada  começou. O meu avô, que era um homem alto, forte, de chapéu de Indiana Jones na cabeça, encabeçou o cortejo de arma em riste. Atrás, o meu pai e todos os trabalhadores e, no meio deles eu, pequenita, com o coração aos saltos. Escapulira-me contra as ordens da minha avó e da minha mãe que gritavam em uníssono “Paulinha, não vás, isso é muito perigoso!”. O grupo embrenhou-se pelo meio do mato, seguindo o rasto da “inhoca”. De repente o meu avô Chico para, faz sinal de silêncio, levanta a espingarda e perante o grupo que susteve a respiração, inclusive eu, que tremia não de medo, mas de emoção, puxou o gatilho. Uma cobra amarela e verde, reluzente, com mais de dois metros, que se levantara e, de cabeça erguida, enfrentara o meu avô. caiu redonda com um tiro na cabeça. O “patrão” foi quase venerado a partir desse instante. Quanto a mim, fui certificar-me de que a cobra estava mesmo morta. Toquei-lhe timidamente e senti a sua pele rija. Olhei para cima e vi o meu Indiana Jones. “Vamos almoçar Paulinha”?. Sorri, inchada de honra e orgulho por ser a neta do corajoso e bravo atirador, do homem sem medos- Dei-lhe a mão, e pensei. “Um dia, vou escrever esta história” …

 

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One thought on “Outras histórias de Indiana Jones

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