História de traumas infantis

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Tudo começou quando o meu irmão, mais novo do que eu nove anos, tinha quatro, cinco anitos. A nossa casa, nos arredores de Faro, era grande e fria e, no Inverno, ele subia as escadas para dormir comigo (o meu quarto ficava no piso de cima). Dormíamos quentinhos e aconchegados. No princípio, acolhia-o durante uma meia hora e mandava-o de volta…mas ele, aterrorizado, nem conseguia pôr a cabeça de fora do lençol. Aterrorizado? Claro! O rapaz vivia nesse período de tempo um verdadeiro filme de terror. Nessa época, há quarenta anos, não havia computadores nem telemóveis e televisões, só mesmo a da sala, pelo que nos quartos, nomeadamente no meu, ouvia-se rádio, lia-se e…contavam-se histórias. Foi por isso que, para o meu irmão dormir e não me chatear, eu comecei a contar-lhe não a história da carochinha nem dos três porquinhos, mas a tenebrosa HISTÒRIA DA FLORESTA AZUL.

A história passava-se numa floresta, que denominei Azul, sabe-se lá porquê, e os protagonistas (um elenco fixo) eram animais. O chefe da banda era o Mocho Franciscano, o sábio lá do sítio, coadjuvado pelo Gato Matateu, a Cegonha Mariazinha, a Lagarta Josefina, a Borboleta Margarida, o Pássaro Branco, o Macaco Simão, entre muitos outros. Estes personagens interagiam entre si, vivendo as mais variadas peripécias, desde casamentos a zangas, em cenas absolutamente hilariantes que procuravam soluços (de tanto rir) ao meu mano. O pior é quando surgiam em cena animais do exterior que de uma forma ou de outra, desestabilizavam a pacatez do reino da Floresta Azul. Nestes casos, a história, interpretada por mim, claro está, iniciava-se invariavelmente da mesma maneira que, só por si, fazia com que o menino se agarrasse a mim com a emoção à flor da pele. “Ora meus caros amiguinhos da floresta azul, ontem aconteceu uma coisa muiiiiiiito estranha na floresta”. A frase dita com ênfase e num tom absolutamente misterioso quebrava desde logo as regras do bom senso supostamente exigido a uma rapariga de 12, 13 anos tão certinha e responsável como eu.

A partir daí, era um desenrolar de tenebrosos acontecimentos, envolvendo as personagens mais estranhas, acompanhados sempre por sons condicentes com o “filme”, como os de alguém a bater à porta numa noite de chuva intensa. O meu irmão, coitado, agarrava-se como podia a mim, fechava os olhos “para não ver”, escorregava cama abaixo para se esconder do pesadelo. No final, a história acabava bem, com finais felizes e descontraídos. Relaxado e sonolento não ficava, contudo, o miúdo, contrariando o propósito da irmã. Durante a noite, o pobre tinha ataques de sonambulismo  (chegava a cantar), pregando sustos enormes à autora da história que passava a dormir, após terminados estes achaques, com a cabeça enrolada no lençol.

Anos mais tarde, fui estudar para Lisboa e nos últimos três anos de faculdade, vivi em casa dos meus tios que tinham um filhote de 6, 7 anos. Como dormia no mesmo quarto que ele, no Inverno, obviamente, deitava-me na cama dele e contava-lhe a mesma história, provocando idênticas emoções. Aos 26 tive o meu primeiro filho, que foi único durante sete anos. O pobre sofreu as mesmas agruras que o tio e o primo, mas mais refinadas. Porque a minha bagagem era outra e a criatividade maior. Aos 33 tive a minha filha e até aos sete anos de idade dela, já o irmão tinha 14 e era um adolescente com outras preocupações, todas as noites reunia os dois e lá ia eu contar mais um episódio dos “caros amiguinhos da floresta azul”.

Hoje, ainda nos recordamos todos dos momentos de suspense e medo que vivemos. Os meus filhos recordam com exatidão os nomes dos personagens e as suas “pancas”.  Quanto a mim, assolam-me ideias ainda mais tenebrosas de culpa e remorso, pelos (obrigatoriamente) traumas causados naquelas quatro cabecinhas. Será que marcaram a personalidade de cada um deles? Será que provocaram problemas de insegurança? Ou será, ao invés, que ativaram a sua imaginação e desenvolvimento intelectual? Tenho que reunir os quatro e promover o devido debate, em jeito de balanço…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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