Histórias de vida e morte

Os médicos dizem que entre 26 e 28 de Março de 2016, morri cinco vezes. Não como os gatos, que dizem têm sete vidas, mas  cinco novas vidas tive eu. Bom, não é bem assim. A primeira  quase “morte” ocorreu em casa quando sofri um tromboembolismo pulmonar maciço. Fui inconsciente para o Hospital da Póvoa. Ao segundo dia, na pequena unidade de internamento das Urgências, sofri um enfarte, a segunda “morte”. Fui transferida para o Hospital de São João, no Porto. À saída do hospital, tive a primeira paragem cardíaca. Terceira “morte”. Sobrevivi. No percurso entre a Póvoa e o Porto, tive segunda paragem cardíaca. Voltei a sobreviver. E não é que à entrada do São João tive terceira paragem cardíaca? E voltei a sobreviver? Bolas, que não queria nada ir para as profundezas ou para o paraíso, conforme queiram chamar ao “outro lado”. Prefiro, de facto, denomina-lo “dark side”.

Estive em coma durante quase três semanas. Da boca de médicos, psicólogos, psiquiatras e as pessoas que conhecem a minha história em geral, salta invariavelmente a mesma pergunta. “E o que viste”? “Uma luz?”, “a senhora vestida de branco?”, “o túnel”? A resposta tem dececionado toda a gente. “Só escuridão”. Ou melhor, “não me lembro de nada”. Sei apenas desta minha experiência, que a linha que separa a vida da morte é muito ténua. E confusa. E sobretudo intrigante e misteriosa. Porque é que eu sobrevivi a  cinco “quase mortes”? Sobretudo as últimas três? Quando há quem não sobreviva a uma sequer? Bom, dirão os católicos, que esta minha experiência foi um “milagre”. O meu psicólogo garante a pés juntos que tive desde o primeiro instante um “anjinho da guarda”. E porquê eu e não outros? Também há quem me tenha afiançado, com pseudo conhecimento de causa, que sou “uma das escolhidas de Deus”. E que agora, desde que recuperei, é claro, tenho um “missão na terra”. Será? Qual, pergunto eu? Não sei…

No meio desta confusão toda, uma certeza tenho eu. Estou cá por algum motivo. A minha mais remota lembrança de quando acordei do sono profundo, foi achar que estava num quarto de hospital, a fazer não sei o quê, e a ouvir vozes que me pareciam ser dos meus colegas da escola onde trabalhei. Ouvi a Sofia, a Raquel, o Xaneca, a Marlene…Só mais tarde, quando se aproximou de mim uma enfermeira, é que soube que estava, de facto, num hospital e que as vozes que ouvia eram dos restantes enfermeiros e auxiliares da unidade de cuidados intermédios do Hospital Pedro Hispano. Apercebi-me que estava rodeada de máquinas que apitavam, entubada e com cateteres por todos os lados. Entrei em pânico.

Hoje, penso que a minha não é uma História de Morte , mas sim uma História de Vida. E que, antes, talvez não tinha vivido o suficiente. Nesta maravilhosa oportunidade que tive, tenho estado e continuarei a aproveitar ao máximo a vida e as quase impercetíveis coisas que ela nos proporciona. Tomar um café numa esplanada, fazer um jantarzinho quentinho e reconfortante para a minha família, apanhar ar, cheirar a maresia do mar que está aqui ao lado, encontrar alguém conhecido na rua e dar dois dedos de conversa, escrever um postal de aniversário, regar as minhas plantinhas e ervas aromáticas, olhar-me no espelho e fazer caretas (ordens da terapeuta da fala) e depois desatar a rir das minhas figuras, dar um abraço ao meu companheiro, um miminho às minhas crias…Isto é VIDA! Só posso concluir, posto isto, que dei um grandessíssimo pontapé na morte e que estou aqui para celebrar a vida…e contar Histórias!

praia-auditiva1

 

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